Balanço de ataque a mercado em Darfur varia de 21 a mais de 100 mortos
Grupos de direitos humanos divergem sobre o número e sobre a autoria do ataque de 26 de outubro de 2026 em Nyala, no Sudão. Um dia depois, a candidatura da emiradense Lana Nusseibeh a secretária-geral das Nações Unidas (ONU) foi contestada por organizações que a acusam de negar o apoio dos Emirados à milícia.
Um ataque atingiu na noite de 26 de outubro de 2026 um mercado movimentado de Nyala, capital provincial do Darfur do Sul e principal cidade sob controle das Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), a milícia que disputa o país com o Exército. Dois dias depois, o balanço segue sem confirmação independente e as versões divergem.
O grupo de direitos humanos Emergency Lawyers afirma que um drone do Exército sudanês matou mais de 100 pessoas e feriu outras 113, entre elas muitas mulheres e crianças. O Sudan Doctors Network dá número menor e outra descrição do ataque: ao menos 21 mortos e mais de 40 feridos, atingidos por bombardeio.
A Médicos Sem Fronteiras informou que 36 corpos chegaram ao seu hospital na cidade e que a equipe atendeu 150 feridos na emergência, 21 deles vestindo roupa civil. “A pergunta que todo mundo faz é: por que os mercados estão sendo atacados? Os lugares onde as pessoas precisam comprar comida, onde muitos civis se reúnem”, disse Dale Koninckx, coordenador da Médicos Sem Fronteiras em Nyala. Um vendedor de cigarros contou à Associated Press, sob anonimato, que centenas de combatentes da RSF se concentravam no mercado e que o drone atacou por volta das 20h, matando dezenas de milicianos e mulheres que vendiam comida. Outra testemunha calculou cerca de 14 civis mortos.
O porta-voz das Forças de Operações Especiais, que combatem ao lado do Exército, Mohamed Didan, escreveu no Facebook que mais de “150 recrutas da milícia” morreram no acampamento de Dumaya, a oeste de Nyala.
A guerra começou em abril de 2023 e já matou ao menos 59 mil pessoas e deslocou cerca de 13 milhões, segundo a Associated Press. Parte do país entrou em situação de fome. Em Nyala, a proporção de crianças atendidas por desnutrição aguda grave mais que dobrou entre janeiro e agosto de 2026, de 5% para 11%, segundo dados das Nações Unidas.
Os drones se tornaram a ameaça mais letal para os civis no conflito, e os dois lados recebem equipamento de países do Oriente Médio e de fora da região, informou a Associated Press. Em 28 de outubro de 2026, o governo sudanês voltou a acusar a Etiópia de lançar os drones da RSF que atingiram usinas, hospitais e mesquitas, inclusive em Cartum, segundo a agência estatal SUNA.
Um dia depois do ataque ao mercado, a guerra chegou à disputa pelo comando da Organização das Nações Unidas (ONU). Em 27 de outubro de 2026, horas antes de a emiradense Lana Nusseibeh defender sua candidatura a secretária-geral diante da Assembleia Geral, as organizações Avaaz e Crisis Action reuniram especialistas para contestá-la.
O painel de peritos da ONU sobre o Sudão e a missão de apuração de fatos concluíram que o governo dos Emirados Árabes Unidos forneceu “armas e apoio instrumental para sustentar as atrocidades” da RSF. Nusseibeh sempre negou. Em abril de 2024, quando era representante do país na ONU, escreveu ao Conselho de Segurança que as acusações de apoio militar, logístico, financeiro ou político a “qualquer facção sudanesa” eram “espúrias e infundadas”.
Kenneth Roth, ex-diretor executivo da Human Rights Watch, disse na reunião que não se pode ter a ONU dirigida por “alguém que nega um genocídio”. Nathaniel Raymond, do Laboratório de Pesquisa Humanitária da Universidade Yale, afirmou que a RSF não teria tomado El Fasher sem o apoio emiradense.
Nusseibeh respondeu que tirou licença do cargo de ministra para disputar a vaga e que remete perguntas sobre os Emirados à representação do país. Sobre o Sudão, afirmou: “O conflito horrível no Sudão será o teste decisivo do sucesso de quem chegar à secretaria-geral.” Ela se reúne a portas fechadas com o Conselho de Segurança em 28 de outubro de 2026, e uma votação indicativa está prevista para o fim da semana.
Também em 28 de outubro de 2026, o Reino Unido sancionou 15 comandantes da RSF e das Forças Armadas por suspeita de atrocidades, entre elas violência sexual ligada ao conflito, um ano depois da queda de El Fasher. As medidas impõem proibição de viagem e congelamento de bens, e o governo britânico anunciou £ 5 milhões para vítimas de violência sexual e £ 10 milhões para a resposta humanitária.
A pergunta que os dois episódios deixam aberta é se o Conselho de Segurança vai cobrar de um Estado-membro o apoio que os peritos da própria ONU documentaram, ou se a escolha do próximo secretário-geral vai passar sem essa resposta.