Greve geral leva 1,6 milhão às ruas na França e governo convoca conferência social
A paralisação de 5 de novembro de 2026 tirou o protesto dos liceus e o levou às fábricas, aos hospitais e às ferrovias. Ao fim do dia, o primeiro-ministro marcou uma conferência social para 9 de novembro, sem oferecer número para os salários.
Quase 1,6 milhão de pessoas saíram às ruas da França em 5 de novembro de 2026, na greve geral que a intersindical convocou por salários e poder de compra. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) contou quase 1,6 milhão de manifestantes em todo o país; o Ministério do Interior, órgão do governo francês, contou 600 mil.
A paralisação reuniu a Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT), a CGT, a Força Operária (FO), a União Nacional dos Sindicatos Autônomos (UNSA) e a Federação Sindical Unitária (FSU). O movimento, nascido nos liceus no fim de setembro de 2026, chegou ao setor privado, aos hospitais, às ferrovias e ao controle de tráfego aéreo, em cerca de 200 atos que fecharam até a Torre Eiffel, em Paris, por algumas horas.
O governo mobilizou 70 mil policiais e gendarmes e autorizou prefeituras a proibir ou desviar trajetos em cidades como Rennes, Toulouse e Lyon, onde a polícia usou gás lacrimogêneo contra manifestantes e um carro foi incendiado. Toques de recolher seguem em vigor em várias cidades desde o pico de violência de outubro de 2026.
A resposta em duas velocidades
Ao fim do dia, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu marcou para segunda-feira, 9 de novembro, uma conferência social em Matignon, a sede do governo, com sindicatos e patrões, e deu até domingo ao ministro do Trabalho, Jean-Pierre Farandou, para fechar as consultas sobre salários. A CFDT pede alta de €100 líquidos no salário mínimo, o Smic na sigla em francês; a CGT cobra 10% e a indexação de todos os salários aos preços. Farandou admitiu discutir a alta do mínimo, mas condicionou qualquer reajuste ao efeito sobre o emprego, sem anunciar número.
Na outra velocidade, o Senado aprovou na noite de 27 para 28 de outubro de 2026 o projeto que cobra de manifestantes o custo de depredações, por 229 votos a 105. O texto, apelidado de casseurs-payeurs (“vândalos pagam”, em tradução livre), impõe responsabilidade civil solidária a quem participa de aglomeração violenta, com teto de €10 mil por pessoa, e autoriza a penhora de benefícios como o auxílio-família, o auxílio-moradia e o Revenu de Solidarité Active (RSA), o auxílio francês de renda mínima. O projeto ainda precisa passar pela Assembleia Nacional, a câmara baixa do Parlamento francês.
A conta e o calendário
Sindicatos e entidades de defesa das liberdades, reunidos em Paris em 4 de novembro de 2026, denunciam uma virada autoritária, com interdições, toques de recolher e uso de instrumentos antiterrorismo contra manifestantes. O pano de fundo é um orçamento de ajuste travado num parlamento dividido, com a dívida pública perto de 120% do Produto Interno Bruto (PIB), e a eleição presidencial de abril de 2027, que encurta o calendário de qualquer negociação.
A greve deslocou o conflito do liceu para o mundo do trabalho, e o governo dividiu a resposta entre a mesa de segunda-feira e o aparato das ruas. A margem para ceder nos salários é a que o ajuste fiscal – com a dívida no nível atual – não abre; a eleição presidencial de abril de 2027 encurta o calendário da negociação.