Drones derrubam subestações e Sudão depende de uma só represa
15 subestações foram atingidas desde outubro de 2026 e a represa de Merowe passou a responder por mais de 70% da eletricidade do país. O governo culpa a Força de Apoio Rápido (RSF) e aponta Emirados e Etiópia, que negam, enquanto hospitais e lavouras sentem o blecaute.
Dois ataques com drones deixaram sem energia no domingo, 1º de novembro de 2026, as cidades de Al-Dabbah, no estado do Norte, e Abu Hamad, no estado do Nilo. Os alvos foram as subestações das duas cidades, na mais recente de uma série de investidas contra a rede elétrica em áreas do exército, atribuídas pelo governo sudanês e pela organização de direitos humanos Emergency Lawyers à Força de Apoio Rápido (RSF).
Em Al-Dabbah, moradores acordaram de madrugada com uma explosão e amanheceram sem luz. Abbas Wadaa, morador da cidade, relatou ter ouvido “uma explosão enorme que sacudiu as casas, e depois a energia acabou”. A subestação amanheceu queimada. O guarda da estação, Mohammed al-Nour, morreu no ataque. O blecaute paralisou mercados, hospitais e padarias. Em Abu Hamad, o ataque do mesmo dia tirou a subestação de operação, sem vítimas, segundo o comitê local. 15 subestações foram atingidas desde o início de outubro de 2026, segundo a Emergency Lawyers.
A campanha seguiu na segunda-feira, 2 de novembro de 2026. Drones atingiram de madrugada as subestações de New Halfa e Aroma, no estado de Kassala, e a de al-Ghazali, no estado do Norte, em uma semana que já soma 18 ataques contra o sistema elétrico. O governo militar sudanês afirma que a Etiópia auxilia a RSF nos ataques. No domingo, o governo protocolou queixas contra a Etiópia no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e no Conselho de Paz e Segurança da União Africana.
O balanço local é ainda maior. Mais de 17 estações de distribuição sofreram danos graves em 10 estados, de Cartum ao Mar Vermelho, e os ataques da madrugada de segunda-feira destruíram as instalações de Aroma e Halfa El Jadida, cortando a energia em todo o estado de Kassala. O Sudão está em guerra com a RSF desde abril de 2023.
A quebra começou na quarta-feira, com a usina térmica de Um Dabakir, no estado do Nilo Branco, a maior do país, com 500 megawatts. O ataque destruiu quatro transformadores e danificou três unidades geradoras, desligando a usina, e na sexta-feira um drone com quatro mísseis destruiu os transformadores da subestação principal de Shendi, onde um soldado ficou ferido. Com a térmica fora do ar, a represa de Merowe – com 1.250 megawatts – virou a última grande fonte de eletricidade, respondendo por mais de 70% do fornecimento, segundo um funcionário da estatal Sudan Electric Holding Company. As outras hidrelétricas somam no máximo 100 megawatts. A produção nacional já havia caído de 4.400 megawatts antes da guerra para 1.100. A rede de médicos do Sudão alertou que os cortes ameaçam hospitais, centros de diálise e bancos de sangue. A safra de inverno abre sob risco, pois a irrigação depende de eletricidade e falta diesel para as bombas.
O caso virou crise diplomática no domingo. O Ministério das Relações Exteriores do Sudão protocolou as queixas no fim do dia, chamando a conduta de agressão e ato hostil, e o Conselho de Soberania de Transição publicou um relatório que fala em 70 ataques com 187 drones entre 15 de fevereiro e 27 de outubro de 2026, com 484 civis mortos ou feridos. Os números são do próprio governo sudanês e não têm verificação independente. A Etiópia nega as acusações e diz que o exército sudanês apoia rebeldes do Tigré. Não há resposta formal à queixa de 1º de novembro.
Investigadores independentes apontam o mesmo padrão pelo ar. Outubro de 2026 teve o maior número de ataques com drones contra civis desde o início da guerra, segundo a missão de apuração da ONU para o Sudão, que identificou uma rede transnacional de apoio à RSF com indivíduos e entidades do Chade, de Puntlândia, na Somália, do sudeste da Líbia e dos Emirados Árabes Unidos, sem vincular diretamente nenhum Estado vizinho. Os Emirados negam reiteradamente armar a milícia. A RSF não respondeu aos pedidos de comentário sobre os ataques às subestações.
O que está assentado até aqui é o apagão; a autoria segue sem confirmação. A contagem varia conforme a definição: 15 subestações atingidas, mais de 17 estações danificadas, 18 ataques em uma semana. A única morte confirmada nos ataques à rede é a do guarda de Al-Dabbah.