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Ormuz: o petróleo contorna, o gás não tem para onde ir

O Irã cobra rotas autorizadas ao norte e os Estados Unidos mantêm comboios ao sul, e o petróleo do Golfo já sai 40% por fora do estreito. O gás liquefeito não tem desvio possível, e é ali que a alavanca de Teerã segue inteira.

Em 25 de outubro de 2026, o PortWatch, do Fundo Monetário Internacional, registrou dois trânsitos de navios no Estreito de Ormuz. A base diária anterior ao conflito era de 85. Na semana até 18 de outubro, os países do Golfo exportaram 24,6 milhões de barris de petróleo por dia, acima dos 23,3 milhões de antes da guerra, segundo levantamento da Kpler. As duas medições descrevem o mesmo estreito, e a distância entre elas é o resultado mais importante de oito meses de guerra: o petróleo do Golfo agora consegue sair sem passar por Ormuz. O gás, não.

Dois regimes de passagem

Quem ainda cruza o estreito passa por um regime duplo. O Irã afirma controlar sozinho a passagem e exige que os navios usem as rotas que autoriza, enquanto os Estados Unidos mantêm comboios facilitados na rota sul e sustentam que ela está segura e aberta. O relatório semanal da United Kingdom Maritime Trade Operations (UKMTO), organização britânica de monitoramento marítimo, registrou 277 trânsitos na semana até 28 de outubro, cerca de 70% abaixo do nível anterior ao conflito, dos quais 64 observados por rastreadores automáticos e o restante em movimentos facilitados reportados pelos estadunidenses. A maioria dos navios que transmitia sinal seguia pela rota iraniana, com aumento de tráfego na rota sul. O Naval Cooperation and Guidance for Shipping (NCAGS), o comando naval estadunidense que orienta a navegação comercial, estima que 80% dos trânsitos envolvem navios de energia.

Desde 28 de fevereiro de 2026, a UKMTO contabiliza 88 incidentes no estreito, com pelo menos 35 ataques a navios no Golfo e em Ormuz somente em outubro, o pior mês desde o início da guerra. Março de 2026, com cerca de 30, foi o segundo. O repertório foi se sofisticando: minas de lapela fixadas no casco por barcos pequenos, veículos não tripulados de superfície, projéteis cuja origem a agência não identificou. No caso das minas de lapela, um petroleiro sofreu incêndio na casa de máquinas e a tripulação foi salva, no primeiro uso bem-sucedido do tipo na via desde o começo da guerra.

A disputa sobre o que acontece ali é parte do mecanismo. O Comando Central estadunidense insiste que a Marinha iraniana foi destruída e que a rota sul é segura. Teerã responde que a passagem continua fechada até que a calma volte, e a mídia estatal iraniana chegou a afirmar em 30 de outubro que quatro petroleiros atingiram minas e pegaram fogo, número que nenhuma autoridade marítima confirmou.

A rota que saiu do lugar

O petróleo não ficou no Golfo por causa de um acordo. Ficou porque a infraestrutura mudou de lugar. Em setembro de 2026, 40% do cru exportado pela região já contornava Ormuz, contra 17% antes da guerra, segundo a Kpler. A Arábia Saudita empurrou volume pelo oleoduto Leste-Oeste, o Petroline, de 1.201 quilômetros, até Yanbu, no Mar Vermelho. Os Emirados ampliaram o uso do Habshan–Fujairah, de 406 quilômetros, que desemboca fora do estreito. Quem não tem duto equivalente, como Kuwait, Catar, Bahrein e o próprio Irã, continuou dependente da passagem.

O sistema que emergiu é de transbordo. Mais de 70% do cru que cruzou Ormuz em agosto de 2026 trocou de navio em alto-mar perto de Fujairah ou Sohar, com parte dos cargueiros navegando com o transponder desligado. Os superpetroleiros fazem viagens de vaivém a cada 16 dias, e a contabilidade oficial passa a depender de imagens de satélite e de calado, não de sinal de rádio. Em setembro, a divisão foi de 60% pelo estreito, 23% carregado no Golfo de Omã e 17% pelo Mar Vermelho.

A divergência entre as fontes é grande o suficiente para entrar no texto. A Kpler calcula que as exportações regionais superaram o nível anterior à guerra na semana até 18 de outubro. A Agência Internacional de Energia (AIE) foi mais cautelosa: os embarques de cru do Golfo chegaram a 13,9 milhões de barris por dia em setembro, mais de 75% do nível anterior. A diferença vem da definição, do recorte geográfico e do tratamento dado às exportações iranianas, e a própria AIE recomenda que se diga qual rota e qual janela estão sendo medidas.

“O volume se recuperou. A rota, não”, resumiu a Kpler.

O limite dessa adaptação está medido. A AIE estima que os dutos alternativos, somados, tenham de 3,5 a 5,5 milhões de barris por dia de capacidade disponível, contra os cerca de 20 milhões que passavam por Ormuz em 2025, quase 25% do comércio marítimo mundial de petróleo. A Abu Dhabi National Oil Company constrói um novo duto para contornar o estreito, com operação prevista para o segundo trimestre de 2027, segundo a Argus. Até lá, o desvio é caro, parcial e vulnerável: dutos também podem ser atacados.

O gás ficou sem desvio

A assimetria está no gás. Praticamente todo o gás natural liquefeito do Catar e dos Emirados passa por Ormuz: 93% das exportações cataris e 96% das emiradenses, cerca de 19% do comércio global de gás liquefeito, segundo a AIE. Não existe rota alternativa para o gás catariano. A AIE é explícita: uma interrupção do estreito suprimiria mais de 300 milhões de metros cúbicos por dia, o dobro do que o gasoduto Nord Stream transportava em 2021, e as plantas de liquefação do resto do mundo operam perto da capacidade máxima.

O mercado já cobra esse risco. O preço à vista do gás natural liquefeito na Ásia passou de US$ 30 por milhão de unidades térmicas britânicas pela primeira vez desde dezembro de 2022, e os estoques europeus estavam em 74% nesta semana, contra a média sazonal de cinco anos de cerca de 89%, segundo a OilPrice, que cita a Bloomberg. Em 30 de outubro, a Qatar Gas Transport Company, a Nakilat, confirmou que seu navio de gás liquefeito Al Mayeda foi atingido por objetos não identificados ao transitar o Golfo Arábico, sem feridos nem dano ambiental declarado.

A resposta da QatarEnergy é a medida da desconfiança. A empresa compra gás de longo prazo dos Estados Unidos e de outros fornecedores para montar uma proteção financeira (hedge) de comercialização, que gere receita se as exportações pelo estreito forem interrompidas. “Num cenário em que há um fechamento do estreito, que é a contingência real que buscamos, você veria imediatamente um pico no preço do gás e conseguiria gerar para a QatarEnergy uma receita que de outro modo não seria gerada”, disse o presidente-executivo Saad al-Kaabi à Reuters em 29 de outubro.

O mesmo vale para insumos sem substituto rápido. Antes da guerra, 24% da oferta mundial de enxofre passava por Ormuz, e o preço da tonelada saiu de cerca de US$ 500 para mais de US$ 800, com clientes pagando acima de US$ 1.000 pelo enxofre canadense em junho de 2026, segundo a OilPrice. Enxofre vira ácido sulfúrico, que vira fertilizante, que vira comida. A alavanca de Ormuz migrou do barril para a molécula que ninguém estoca em quantidade.

O Irã tem a chave e não pode girar

O paradoxo iraniano é o motor da guerra. O país que fecha o estreito não consegue vender por ele. O bloqueio naval estadunidense começou em 13 de abril de 2026, foi suspenso durante o acordo interino de 17 de junho de 2026 e reinstalado em 14 de julho de 2026, posicionado entre o Golfo de Omã e o Mar da Arábia, longe da costa iraniana. Desde então, nenhuma carga iraniana de cru atravessou o estreito com destino à China, segundo a Kpler, a Vortexa e o TankerTrackers.com.

Os números do colapso: o Irã carregou de 220 mil a 255 mil barris por dia em agosto, contra cerca de 740 mil em julho e cerca de 2 milhões em março. Havia 29 petroleiros dentro do estreito com 36,11 milhões de barris acumulados, e o Fundo Monetário Internacional estima a inflação iraniana em quase 70% neste ano, a terceira maior do mundo, atrás apenas de Venezuela e Sudão. O planejamento iraniano estuda um cenário de US$ 130 o barril no orçamento do próximo ano, que começa em março de 2027, segundo a OilPrice, um preço que a escassez criada por Teerã ajudaria a produzir e que Teerã não consegue capturar.

É a simetria que sustenta o impasse. O Irã tem poder de negação, não poder de comércio. Washington tem poder de bloquear a receita iraniana, não de reabrir a passagem. Cada mês de fechamento custa a Teerã sua principal fonte de divisas e custa ao Golfo frete, seguro e prêmio de risco. Nenhum dos dois consegue converter a vantagem em vitória, e é por isso que a guerra não termina.

A frente que saiu do estreito

Em outubro, o eixo do conflito se deslocou para o outro lado da península. Os houthis do Iêmen passaram a atacar a Arábia Saudita com uma intensidade que o reino não via há mais de uma década. Uma série de ataques com mísseis balísticos contra o aeroporto internacional Rei Khalid, em Riad, entre 7 e 11 de outubro, matou 16 pessoas e feriu mais de 300, com 13 mortos e 309 feridos no ataque de 10 de outubro, o mais letal; as operações do terminal foram suspensas e centenas de voos cancelados. O balanço do ataque ao aeroporto Rei Fahd, em Dammam, subiu para dois mortos. Em 27 de outubro, os houthis disseram ter acertado a refinaria de Ras Tanura, a maior do reino, com um míssil balístico, e a coalizão liderada por Riad afirmou ter interceptado os mísseis sem vítimas, sem verificação independente até aqui.

A escalada tem causa rastreável. Os houthis tomaram áreas da costa iemenita do Mar Vermelho em setembro, e forças do governo iemenita apoiadas por Riad retomaram parte delas no início de outubro, afrouxando o cerco sobre a rota de Bab el-Mandeb. A campanha de mísseis veio depois. O resultado é que a guerra deixou de ser apenas sobre Ormuz: o Golfo e o Mar Vermelho passaram a ser um único teatro, e a Arábia Saudita virou o alvo que os Estados Unidos não podem proteger sem se envolver mais.

A conta da segurança

O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) pôs número no que o Golfo descobriu. Nas semanas anteriores ao cessar-fogo de 8 de abril, 12 Estados da região, quase todos do Golfo, enfrentaram 4.670 drones de ataque unidirecional e mais de 1.400 mísseis balísticos iranianos. Quase metade foi dirigida aos Emirados Árabes Unidos. A maior parte foi interceptada, mas uma estimativa citada no estudo põe o dano à infraestrutura de energia em até US$ 58 bilhões, segundo o Guardian.

O diagnóstico do IISS é o dado político do ano. O trilhão de dólares gasto em armamento não se converteu em proteção no momento decisivo, as forças locais não estão preparadas para uma guerra de atrito com drones baratos e mísseis, falta capacidade de varredura de minas e as bases estadunidenses serviram de pretexto para o ataque, em vez de dissuadi-lo. A conclusão do instituto é que os Estados do Golfo terão de reconfigurar a defesa, e que a parceria com Washington não garantiu proteção adequada.

A resposta já está em curso, e ela é regional. O Pacto de Defesa de Meca, assinado em 7 de agosto de 2026 por Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, estabelece que um ataque armado contra um dos membros é ataque contra os três, com secretariado permanente, liderança rotativa e admissão de novos membros. O Paquistão concluiu a ratificação; a Turquia enviou o texto ao Parlamento em 20 de outubro, com envio inicial de técnicos e especialistas em defesa aérea, segundo o Jerusalem Post. O Paquistão é uma potência nuclear, e o pacto é a primeira camada de segurança do Golfo que não passa por Washington desde os acordos dos anos 1970. O Egito autorizou Sisi a defender a Arábia Saudita em 26 de outubro, sem missão nem prazo definidos, e o Reino Unido enviou caças Typhoon em papel defensivo. A França de Macron percorreu o Golfo em outubro para garantir 295 mil toneladas mensais de diesel, pouco mais de 10% do consumo francês.

A leitura mais confortável para Washington, de que o Golfo apenas diversifica fornecedores, não explica a rapidez nem o desenho. O pacto de Meca foi assinado em agosto, quatro meses depois do cessar-fogo, e reúne exatamente os três países que têm interesse em conter o Irã sem depender de uma base estadunidense que atrai mísseis. É menos uma ruptura com os Estados Unidos do que um seguro contra a próxima vez em que o guarda-chuva falhar.

O relógio de 3 de novembro de 2026

A decisão imediata está em Washington. Em 25 de outubro, o vice-presidente J.D. Vance enviou uma carta ao secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Mohsen Rezaei, propondo retomar a negociação nuclear com a reabertura do estreito em sete dias, em troca de alívio das sanções. Teerã mantém sete condições prévias, entre elas o fim das sanções, o desbloqueio de ativos e o encerramento da guerra em todas as frentes. O impasse é de sequência: Washington quer o compromisso nuclear antes do alívio; Teerã quer o alívio antes do compromisso, e nenhum dos dois publicou o texto da carta.

O Catar costura uma saída. Enviados iranianos passaram mais de 12 horas em conversas com mediadores cataris em Teerã em 30 de outubro de 2026, e voltaram a se reunir em Doha em 31 de outubro de 2026. Circula um plano de dois dias para reabrir o estreito se Washington aceitar as condições de Teerã. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que não verifica o estoque de 440,9 quilos de urânio enriquecido a 60% desde junho de 2025, diz que o Irã não tentou reparar as instalações nucleares danificadas nos ataques de 2025 e 2026, segundo Rafael Grossi. O material continua sem inspetor, e é isso que Washington quer na mesa antes de qualquer alívio.

Do outro lado do relógio, Donald Trump avisou os países árabes do Golfo para se prepararem para uma campanha curta e intensa depois das eleições de meio de mandato de 3 de novembro de 2026, com bombardeiros e caças sendo preparados e munição reabastecida na região. Teerã ameaça responder atingindo dessalinizadoras, cabos submarinos de internet e redes elétricas, e duas autoridades de segurança iranianas disseram à Reuters que o país tem planos detalhados para cortar os cabos do Golfo e impedir o reparo, segundo o The Hindu. A guerra custou aos Estados Unidos US$ 38 bilhões até setembro, com cerca de US$ 3 bilhões por mês se continuar, segundo o Congressional Budget Office.

O que pode acontecer

Quatro desfechos estão sobre a mesa, e cada um depende de uma coisa que nenhum dos lados controla sozinho.

O primeiro é a campanha curta e intensa seguida de negociação. Washington bombardeia, Teerã volta à mesa em posição pior, e o estreito reabre sob um acordo de sequência imposta. O custo é imediato: ataques iranianos à infraestrutura do Golfo, prêmio de seguro no pico e um salto do gás que atinge a Europa no inverno.

O segundo é o acordo sequenciado com garantia de terceiros. Nas conversas sobre garantias, a China aparece como o único país com status suficiente para avalizar o compromisso, e o Catar opera como fiador prático. Exige que Washington aceite a diluição do estoque dentro do Irã, em vez de sua retirada, e que Teerã aceite inspetores antes do fim total das sanções.

O terceiro é a continuação do estado atual, nem guerra nem paz, que já dura desde julho. Nesse cenário, o estreito segue semiaberto, o petróleo continua saindo por dutos e transbordo, o gás mantém o prêmio e os ataques a navios viram rotina administrada. É o desfecho mais provável porque é o único que não exige que ninguém ceda primeiro.

O quarto é a guerra de infraestrutura. Se o Irã cortar cabos e atingir dessalinizadoras, ou se os houthis acertarem de forma verificável uma refinaria saudita, o conflito deixa de ser uma disputa sobre navegação e vira uma disputa sobre a viabilidade urbana do Golfo. Cidades como Dubai e Doha dependem de dessalinização e de cabos para funcionar. Nesse cenário, os Estados do Golfo são obrigados a escolher entre entrar na guerra ao lado de Washington ou negociar um pacto de não agressão com Teerã, e o pacto de Meca deixa de ser hedge para virar aliança ativa.

O que ficou assentado

O Estreito de Ormuz não está aberto nem fechado. Está partido em dois regimes, um iraniano e um estadunidense, e o mundo aprendeu a atravessá-lo pagando pedágio, transbordo e seguro. O petróleo encontrou desvio, e a recuperação dos volumes é real, ainda que medida de formas que divergem. O gás não encontrou, e é ali que a alavanca do Irã continua inteira. O enriquecimento de 440,9 quilos a 60% segue sem verificação, o que dá a Washington um motivo para não desarmar e a Teerã um ativo para não entregar.

A guerra também mudou a arquitetura de segurança do Golfo de um jeito que sobreviverá ao cessar-fogo. O trilhão de dólares em armas estadunidenses não comprou proteção, e os países da região começaram a montar a sua própria camada, com o Paquistão, a Turquia e o Egito dentro. A ruptura com Washington é menor do que parece, e o alinhamento de antes não volta.

O que ninguém consegue datar é a conta final. Ela não chega pelo estreito, que já foi contornado. Chega pelo preço do gás, pelo fertilizante que falta, pelo seguro que encarece e pela eletricidade de um Golfo que descobriu, ao mesmo tempo, que seu dinheiro comprou armas e que suas armas não compraram proteção.

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