Egito autoriza Sisi a defender a Arábia Saudita sem definir missão nem prazo
A Câmara dos Representantes aprovou por dois terços o mandato pedido pelo presidente em 17 de outubro de 2026, mas não publicou o resultado da votação. Cairo diz que só age se Riad pedir, e nenhum pedido formal saudita foi anunciado.
A Câmara dos Representantes do Egito aprovou em 26 de outubro de 2026, por dois terços dos votos, autorizar o presidente Abdel Fattah el-Sisi a “tomar as medidas necessárias para apoiar o Reino da Arábia Saudita”. O mandato deixa a decisão nas mãos do presidente, depois de coordenação entre os dois países, e não define forma, tamanho, prazo nem custo de uma eventual operação.
A votação foi nominal, a portas fechadas, e o resultado não foi publicado. O Parlamento, de maioria governista, fez três sessões secretas sobre o assunto e adiou a decisão duas vezes. Pela Constituição egípcia, enviar o Exército em missão de combate ao exterior exige o apoio de dois terços da casa, ou 398 dos 596 deputados, conforme o jornal The National.
O aval não envia tropa nenhuma por si só. Sisi pediu o mandato em 17 de outubro de 2026, numa cerimônia de formatura da Academia Militar, e disse que nada seria feito sem pedido de Riad. Nenhuma solicitação formal saudita foi anunciada. O presidente egípcio afirmou que o apoio se limitaria a defender o território e as fronteiras do reino e não incluiria ataque ao Iêmen.
O Egito tem o maior aparato militar do mundo árabe, com centenas de milhares de militares na ativa, caças e defesas antiaéreas comprados dos Estados Unidos, da China, da França e da Rússia. O país integrou a coalizão liderada pelos sauditas no Iêmen em 2015, com forças navais e aéreas, e não faz um deslocamento terrestre de grande escala no exterior desde a Guerra do Golfo de 1991.
A conta que empurra Cairo para o lado de Riad é econômica. O Egito tem dois canais de dólares atingidos pela guerra: a receita do canal de Suez, que não se recuperou desde que os ataques houthis começaram, em 2023, e as remessas dos egípcios que trabalham na Arábia Saudita, que somaram US$ 12 bilhões no último ano fiscal, mais do que o recorde do canal em 2023. O reino é o maior empregador de egípcios fora do país e um dos principais financiadores do governo de Sisi.
A guerra também deixou de ser abstrata. Em 10 de outubro de 2026, um ataque houthi ao aeroporto de Riad matou 12 pessoas, entre elas Azza Ramzy, de 28 anos, nascida na província de Beheira. O parlamento houthi em Sanaa avisou o presidente da casa egípcia, Hisham Badawi, que uma intervenção seria “um perigo grave” para a segurança nacional do Egito.
H.A. Hellyer, pesquisador associado sênior do Royal United Services Institute, centro de análise britânico, disse à agência France-Presse que o cálculo egípcio mudou, sem que a reticência de Cairo tenha desaparecido. “Eles próprios veem um risco grande no que está acontecendo na Arábia Saudita e no Mar Vermelho”, afirmou. “O que os sauditas querem, acima de tudo, do Egito é apoio político e presença simbólica dentro da Arábia Saudita. É ficar ombro a ombro com os sauditas.”
Nem todos concordaram. O Partido Social Democrata Egípcio, com 11 cadeiras, se absteve e pediu “objetivos específicos, informações claras” sobre o alcance e a duração da missão, além de uma avaliação dos riscos para a vida dos soldados. A deputada Maha Abdel Nasser classificou o mandato de aberto e vago e defendeu uma saída diplomática, segundo o The National.
A guerra não esperou a decisão. Em 28 de outubro de 2026, os houthis emitiram ordem de evacuação do aeroporto de Áden, no sul do Iêmen, alegando a presença de um cargueiro militar saudita, e cerca de 90 minutos depois um míssil atingiu a área sob controle das forças sauditas dentro do aeroporto, segundo um oficial da polícia ouvido pela France-Presse. No mesmo dia, um ataque saudita a Hazm, capital da província de Al-Jawf, matou 16 pessoas e feriu 10, entre elas mulheres e crianças, segundo a emissora Al-Masirah, ligada aos houthis, conforme o g1. A Arábia Saudita não confirmou.
Em 28 de outubro de 2026, o presidente russo, Vladimir Putin, recebeu Sisi em Moscou, à margem de um fórum da cúpula Rússia-África, sem anúncio de cooperação militar.
A pergunta que o mandato deixa aberta é o que Riad vai pedir de fato: a presença simbólica que Hellyer descreve, ou tropas que coloquem o maior Exército árabe dentro de uma guerra que o Egito passou uma década evitando.