Greve geral na Itália leva dezenas de milhares às ruas contra a guerra e a carestia
A União Sindical de Base desobedeceu à ordem do ministro Matteo Salvini que remarcou a greve dos transportes e manteve a paralisação, com multas de € 500 a € 1.000 para quem aderisse. Trens e metrôs circularam normalmente, e os portos entraram numa mobilização internacional contra o tráfico de armas que alcançou mais de 100 portos em 17 países.
A Itália teve nesta sexta-feira, 30 de outubro de 2026, a maior jornada de protesto do ano. A greve geral convocada pela União Sindical de Base (USB) e por centrais de base como os Cobas encheu praças de Roma, Milão, Turim, Nápoles e outras cidades contra o custo de vida e o gasto militar, e não parou os transportes: uma ordem do ministro da Infraestrutura e dos Transportes, Matteo Salvini, adiou a paralisação de trens, ônibus e metrô. A rede pública Rai contabilizou dezenas de milhares de pessoas nos cortejos, com cerca de 30 mil só no cortejo de Milão, que ocupou um trecho da via expressa leste fechada ao tráfego. A USB fala em milhões de trabalhadores parados, número que nenhuma autoridade confirmou.
A ordem que não pegou
O ministério assinou em 27 de outubro de 2026 a ordem de precettazione 204 T, um instrumento pelo qual o governo obriga os trabalhadores a cumprir os turnos, e remarcou a greve dos transportes. O Grupo Ferrovie dello Stato confirmou circulação normal entre as 21h de 29 de outubro e as 21h de 30, e as empresas de transporte de Roma e de Milão anunciaram serviço regular. A USB chamou a ordem de “errada e ilegítima”, avisou que desobedeceria e informou os trabalhadores de que as multas individuais iriam de € 500 a € 1.000, com assistência jurídica do sindicato e sem dinheiro para pagar as sanções.
Nas ruas, o dia foi de confronto. Em Roma, manifestantes tentaram romper o cordão policial perto da Ponte Sublicio para chegar ao Circo Massimo, e a polícia respondeu com jatos d’água; o cortejo estudantil terminou em um ato isolado na praça Albânia. Em Turim, um grupo com capacetes atirou garrafas contra os policiais na via Roma e a tropa de choque usou gás lacrimogêneo. Em Pisa, estudantes ocuparam a universidade.
Dos portos para as ruas
No mesmo dia, os portuários cruzaram os braços numa mobilização internacional contra o tráfico de armas e a militarização das docas, convocada por organizações como a USB na Itália, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) na França e sindicatos da Grécia, da Turquia, de Marrocos e do País Basco. Segundo os organizadores, aderiram trabalhadores de mais de 100 portos em 17 países e quatro continentes. Na Itália, os protestos alcançaram Gênova, Livorno, Trieste, Civitavecchia, Ancona, Ravenna e Gioia Tauro.
A pauta que uniu sindicato, estudantes e portuários é a mesma em toda a Europa: salário corroído pela carestia, serviços públicos sucateados e orçamento que migra para o armamento. A USB define a paralisação como protesto contra “a economia de guerra imposta pelo governo Meloni”, contra o custo de vida “que está estrangulando a população” e contra a repressão a jovens e trabalhadores que protestam.
O movimento de 17 de outubro, criado nas manifestações daquele dia contra o rearmamento, cresceu no período.
O que ficou marcado
No fim do dia, a USB instalou um acampamento na via dos Foros Imperiais, em Roma, com a promessa de manter a pressão: noite de música e debate neste sábado, 31 de outubro de 2026, e assembleia nacional na manhã de domingo, 1º de novembro de 2026. O movimento quer resposta do governo às duas bandeiras, carestia e armamento, e diz que não vai deixar a pauta morrer com os incidentes de rua. Em Turim, os ocupantes do campus Einaudi e o grupo Torino per Gaza marcaram nova manifestação para 7 de novembro de 2026, às 15h, na praça Castelo.
O governo esvaziou a greve nos transportes com um instrumento jurídico e não esvaziou as ruas. A conta dessa jornada vai aparecer nas próximas datas: a assembleia de domingo diz se o movimento de base se transforma em campanha nacional, e a praça de Turim, em 7 de novembro de 2026, mede se a adesão de 30 de outubro era um pico de outubro ou o começo de um outono de protestos.