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Tempestade destrói 70 mil tendas em Gaza e atinge 400 mil deslocados

Chuva de 60 milímetros em 12 horas alagou acampamentos desde a noite de sexta-feira; a Defesa Civil recebeu 1.500 chamadas e o escritório de imprensa do governo estima US$ 3 milhões em danos, com a entrada de material de abrigo ainda restrita.

A chuva forte e o vento que atingem a Faixa de Gaza desde a noite de sexta-feira, 6 de novembro de 2026, inundaram 70 mil tendas e derrubaram dezenas de muros em toda a extensão da Faixa, segundo o Escritório de Imprensa do governo, ligado ao Hamas. A Defesa Civil palestina recebeu ao menos 1.500 chamadas de emergência e calcula que mais de 2 mil prédios correm risco de desabamento.

Cerca de 400 mil deslocados vivem em áreas que as agências classificam como muito vulneráveis a novas enchentes. Em outubro, o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários já havia contado 950 mil pessoas em locais de deslocamento com risco moderado ou alto de inundação, mais de 400 mil delas em áreas de risco alto.

O Escritório de Imprensa do governo, ligado ao Hamas, estimou o prejuízo imediato em US$ 3 milhões. O que a tempestade expôs é a fragilidade material de quem perdeu a casa: as tendas não protegem de vento e chuva, e o material para substituí-las depende de autorização israelense. “Fomos até as pessoas e encontramos um acampamento inteiro alagado, com tendas, gente, móveis e roupa de cama”, disse à agência Anadolu Abdullah al-Majdalawi, diretor de relações públicas da Defesa Civil. “Estamos diante dessa realidade trágica e difícil em Gaza sem ter o que fazer.”

Na Cidade de Gaza, caíram 60 milímetros de chuva em 12 horas, cerca de 15% do volume anual, segundo o porta-voz da prefeitura, Hosni Muhanna. Cerca de 1 milhão de moradores e deslocados estão concentrados em 30% da área da cidade, e 270 acampamentos correm risco de alagamento. Muhanna acrescentou que a guerra reduziu a capacidade do sistema de drenagem a 20%, o que deixa os bairros baixos ainda mais expostos. As equipes municipais receberam 250 chamadas por ruas alagadas, erosão e bueiros entupidos. Cinco pessoas ficaram feridas quando muros de prédios já danificados por ataques anteriores desabaram e uma telha de metal caiu durante o temporal.

A conta maior é de quem precisa de abrigo em condições de inverno. A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA) informou na quinta-feira, 5 de novembro de 2026, que quase 2 milhões de pessoas, cerca de 94% da população de Gaza, precisam de abrigo e de itens essenciais, e que 58% enfrentam necessidades críticas ou catastróficas nessa área.

Do lado do que entra, a situação piorou antes da chuva. O relatório do escritório humanitário da ONU de 5 de novembro registra que as restrições israelenses à entrada de óleo de motor e peças de reposição ameaçam os serviços de água, saneamento e saúde, e que as condições de abrigo seguem péssimas, com a demanda das famílias muito acima dos recursos do setor de abrigo. O setor de segurança alimentar avisou que a produção e a distribuição gratuita de refeições podem cair cerca de 45% se continuar a suspensão israelense da entrada de suprimentos humanitários e comerciais vindos do Egito.

O cessar-fogo de outubro de 2025 interrompeu a ofensiva em larga escala. A destruição cotidiana continuou. Desde o início da trégua, ao menos 1.610 palestinos foram mortos em Gaza, num total de mais de 74.640 mortos desde 7 de outubro de 2023, segundo o boletim das autoridades de saúde do território. Famílias em Deir el-Balah, no centro da faixa, relatam não receber ajuda alimentar desde o início do sábado, 7 de novembro de 2026.

A tempestade mediu a crise de abrigo em uma noite. Quem perdeu a casa em 2025 continua dependendo de uma tenda que o inverno derruba, de um kit de emergência que não chega e de uma autorização israelense para entrar material de reparo. A pergunta que as 1.500 chamadas de emergência deixam é quantas tempestades ainda cabem num cessar-fogo que não devolveu a ninguém a casa onde morar.

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