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Sudão volta a deter Ahmed Haroun, procurado pelo Tribunal Penal Internacional

Chefe do antigo partido de Omar al-Bashir foi preso em Kassala sem motivo declarado, um dia depois de dizer que o partido e o Exército não estão alinhados politicamente e só se unem contra as Forças de Apoio Rápido.

As autoridades militares do Sudão voltaram a deter neste domingo, 8 de novembro de 2026, Ahmed Haroun, ex-dirigente de segurança de Omar al-Bashir e presidente do antigo partido governista Congresso Nacional, procurado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes cometidos em Darfur. Dois advogados de defesa disseram à Associated Press que a prisão ocorreu na província de Kassala, no leste do país, e que não houve motivo declarado. O local em que ele está detido não foi informado. Dois dirigentes do partido confirmaram a detenção à Reuters.

Haroun foi um dos nomes de primeiro escalão da segurança do regime de al-Bashir e, depois, ministro do Interior e dos Assuntos Humanitários. O tribunal de Haia o acusa em mais de 40 acusações de crimes de guerra e contra a humanidade em Darfur, no início dos anos 2000: assassinato, estupro, tortura, ataques a civis e destruição de propriedade. Ele nega as acusações e as classifica como políticas.

A trajetória dele acompanha a do próprio regime. Foi preso em abril de 2019, quando meses de protesto derrubaram al-Bashir, e ficou detido numa cadeia de Cartum ao lado do ex-presidente e de outros procurados pelo tribunal. O Exército se recusou a entregá-los. Haroun saiu da prisão em abril de 2024, quando o presídio foi atacado na guerra entre o Exército e as Forças de Apoio Rápido, a milícia paramilitar que nasceu das Janjaweed, mobilizadas por al-Bashir no início dos anos 2000 contra populações de Darfur.

Os advogados ligam a nova detenção a uma entrevista que ele deu no sábado, 7 de novembro de 2026. Nela, Haroun disse que o Congresso Nacional e o Exército podem não estar alinhados politicamente, mas seguem unidos na guerra contra as Forças de Apoio Rápido. A fala contraria a versão de que o partido e a caserna formam um bloco só, e chega num momento em que o campo que se apresenta como governo negocia o desenho do poder depois da guerra.

O grupo Advogados de Emergência, que assessora vítimas do conflito, classificou a entrevista como “escândalo jurídico e desafio direto à justiça internacional” e pediu que o Exército entregue Haroun ao tribunal, junto com al-Bashir e o ex-ministro da Defesa Abdel-Rahim Muhammad Hussein. “A justiça para as vítimas de crimes cometidos no Sudão não pode ser refém de equilíbrios políticos ou militares”, afirmou o grupo.

O episódio mostra que a disputa pelo poder em Cartum também corre dentro do campo que hoje ocupa o poder em Cartum e enfrenta as Forças de Apoio Rápido. O Exército precisa dos islamistas do antigo partido para mobilizar quadros e dinheiro, e não quer que eles se apresentem como governo paralelo. Haroun falou em nome desse movimento num momento em que qualquer sinal de autonomia vira problema para a caserna.

O mandado do tribunal segue sem execução quase duas décadas depois de expedido. O Estatuto de Roma, que criou o tribunal, prevê a cooperação dos Estados, e o Sudão não a pratica: o Exército, que controla Cartum, recusou a entrega em 2019, e a detenção de domingo não foi acompanhada de nenhum anúncio de entrega, sem que o tribunal tenha força própria para prender ninguém. A guerra civil, que já rendeu às Forças de Apoio Rápido a acusação, feita por especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), de atos com “marcas de genocídio” em el-Fasher, tornou essa cooperação ainda menos provável.

A prisão de domingo deixa aberta a pergunta que o grupo Advogados de Emergência faz há anos: se o Sudão vai entregar ao tribunal quem prende, ou se cada detenção de um procurado serve apenas para tirá-lo de circulação política enquanto a impunidade continua sendo a regra.

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