Marcha Linha Vermelha leva 200 mil às ruas de Amsterdã contra Israel
Quarta edição do ato pede que o governo neerlandês amplie o embargo comercial, pare toda venda de armas e reconheça genocídio em Gaza; o número de participantes é estimativa dos organizadores.
Pelo menos 200 mil pessoas marcharam neste domingo, 8 de novembro de 2026, em Amsterdã contra a política do governo dos Países Baixos para Israel, na quarta edição do ato chamado Linha Vermelha. O número é estimativa dos organizadores, e a polícia neerlandesa informou que a manifestação transcorreu sem incidentes graves. A marcha deu a volta no parque Vondelpark, começou e terminou na praça Museumplein, e a Associated Press descreveu a multidão como de dezenas de milhares de pessoas, sem apresentar contagem própria.
As exigências são quatro, e vão além do que o governo já fez. Os organizadores pedem que o embargo nacional à importação de produtos dos assentamentos israelenses seja ampliado para todo comércio e investimento ligados à ocupação, com desinvestimento de empresas que contribuem para a ocupação; o fim de toda venda de armas a Israel, direta ou indireta, incluindo importações, e da cooperação militar; e pressão política, econômica e diplomática máxima para encerrar a ocupação, conforme a decisão da Corte Internacional de Justiça. O ato também pede que o governo neerlandês declare que a ofensiva israelense em Gaza é genocídio.
O que o gabinete do primeiro-ministro Rob Jetten já entregou foi o embargo à importação de produtos vindos dos assentamentos ilegais da Cisjordânia, anunciado em setembro de 2026. Para os organizadores, a medida é insuficiente e chega tarde: o comunicado que convocou a marcha diz que o governo neerlandês “já perdeu tempo demais para traçar uma linha vermelha contra os crimes de guerra de Israel e a ocupação ilegal”.
Jetten não participou. Em entrevista coletiva na sexta-feira, 6 de novembro de 2026, ele disse que seria inapropriado comparecer agora que é primeiro-ministro, embora tenha marchado em edição anterior como líder do partido Democratas 66 (D66). Na época, ele chamou de genocídio o que Israel faz em Gaza; como chefe de governo, deixou de usar o termo, e afirma que o gabinete tem o dever de fazer tudo para evitar mais escalada. Em sua defesa, ele disse que o governo faz o que pode todos os dias e que exerce maior pressão política e diplomática sobre Israel.
A manifestação teve apoio de políticos veteranos: os ex-prefeitos de Amsterdã Job Cohen e Jozias van Aartsen marcharam, e no palco da Museumplein falaram a ex-ministra Lilianne Ploumen, a jornalista Amal Helles, de Gaza, e o ativista palestino Omar Barghouti. 13 organizações convocaram o ato, entre elas a Anistia Internacional, a Oxfam Novib e a Save the Children. Houve também tensão nas margens. A emissora local AT5 relatou que policiais usaram cassetetes na rua Overtoom ao prender um homem que se recusava a descer do teto de um abrigo de ônibus, e que pessoas ao redor se envolveram no episódio. Na mesma rua, um grupo exibiu faixas com os dizeres “apoiamos o Hamas”; os organizadores disseram não poder garantir que apoiadores do movimento não participassem, mas sustentaram que a marcha é pelos direitos humanos, e manifestantes responderam que nunca apoiariam o Hamas.
A série de atos cresceu desde 2025. Os organizadores contaram 100 mil pessoas em Haia em maio daquele ano, 150 mil em Haia em junho e 250 mil em Amsterdã em outubro, na edição anterior.
O cenário da marcha não se limita aos Países Baixos. A Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional (TPI) ficam em Haia, e o segundo passou a sofrer pressão aberta do governo de Donald Trump por investigar autoridades israelenses; em julho de 2026, o secretário de Estado Marco Rubio prometeu “desmontar o TPI, tijolo por tijolo, se for preciso”.
A pergunta que a marcha deixa para o governo neerlandês é a mesma que os organizadores fazem desde 2025: até onde o gabinete está disposto a ir quando a linha vermelha que ele mesmo traçou deixa de fora o comércio de armas e o restante da ocupação.