Putin fecha cúpula com a África oferecendo grãos, armas e plano até 2029
A terceira cúpula Rússia-África terminou e construiu um plano de ação para o triênio 2027-2029. Moscou oferece grãos, fertilizantes e acordos militares a um continente de 54 votos na Assembleia Geral da ONU, sem anunciar financiamento novo.
Moscou encerrou nesta quinta-feira, 29 de outubro de 2026 a terceira cúpula Rússia-África com a Declaração de Moscou, um plano de ação para o triênio 2027-2029 e a promessa de ampliar um comércio que, segundo Vladimir Putin, ficou em US$ 27 bilhões em 2025. O encontro reuniu 21 chefes de Estado africanos, conforme a contagem da agência oficial TASS, e cerca de 22, na contagem da Africanews, com delegações de 48 países. A diferença de um líder entre as duas contagens é o tipo de detalhe que a cúpula não resolveu, mas o tamanho do encontro diz o essencial: quase todos os países do continente mandaram alguém a Moscou.
É a terceira edição do formato, depois das cúpulas de 2019 e de 2023, e acontece com a guerra na Ucrânia consumindo os recursos que a Rússia destinava à projeção externa. O que Moscou apresentou como entrega tem três pilares, e nenhum deles é capital novo.
O primeiro é comida. Putin disse na cúpula que a Rússia embarcou mais de 18 milhões de toneladas de grãos para a África em 2025 e outras 13 milhões de toneladas nos primeiros nove meses de 2026. As exportações de fertilizantes minerais ficaram em cerca de 1,5 milhão de toneladas em 2025 e já passaram de 2,2 milhões de toneladas neste ano. O volume é real e importa para países que dependem de importação de trigo e de adubo.
O segundo pilar é armamento e segurança. Putin afirmou que a Rússia tem acordos intergovernamentais de cooperação militar e técnico-militar com 45 países africanos. A Africanews registra que os combatentes paramilitares do Africa Corps, estrutura que sucedeu o grupo Wagner, seguem ativos no continente. Nesse campo, Moscou disputa o mesmo mercado que Estados Unidos, Europa e China, e a agência Associated Press (AP) registra que a Rússia também se apoia em contratos militares privados para ampliar influência.
O terceiro é educação e presença cultural. Quase 40 mil estudantes africanos cursam universidades russas, e Putin prometeu ampliar o número, inclusive em vagas gratuitas, além de abrir filiais de universidades e centros culturais nos países que pedirem.
Do outro lado da mesa, o que a África pediu foi outra coisa. O presidente do Burundi, Évariste Ndayishimiye, que preside a União Africana e copresidiu a cúpula, resumiu a demanda em uma frase: a África quer parceiros que a ajudem a gerar a própria riqueza e não aceita ser condenada a exportar matéria-prima para importar o produto acabado a alto custo. Ele cobrou participação em toda a cadeia de valor, da produção à comercialização. Putin respondeu no terreno que lhe convém: disse que é hora de reformar o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial para redirecioná-los às necessidades das economias em desenvolvimento, e defendeu que a África tenha assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).
O peso político do continente está no tamanho da bancada. A África tem 54 países e forma o maior bloco de votos da Assembleia Geral da ONU, num continente de quase 1,6 bilhão de pessoas. É esse ativo que Moscou cortejou, e é ele que sustenta a retórica que Putin escolheu para a cúpula. “A era em que o destino de continentes inteiros era decidido por um bloco estreito de Estados está chegando a um fim irreversível”, disse o presidente russo. A frase é dele, e o vocabulário tem dono: o anticolonialismo é a linguagem com que Moscou se apresenta como herdeira da União Soviética e como alternativa a Washington, Bruxelas e Pequim, sem mencionar que a Rússia também disputa influência e contratos no continente. A mesma AP registra como Putin descreveu as empresas russas: reinvestem o lucro em vez de drená-lo, ao contrário das antigas potências imperiais. É a versão do Kremlin, apresentada por ele.
A cúpula, porém, entregou menos do que a retórica sugere. Nas declarações divulgadas pelos dois lados, não houve anúncio de financiamento novo, de banco de desenvolvimento conjunto ou de fundo para projetos. O plano de ação até 2029 lista objetivos, não dinheiro. O comércio de US$ 27 bilhões, cifra atribuída por Putin ao comércio Rússia-África em 2025, é modesto para um continente de 54 países, e a fatia que Putin destacou é de grão e fertilizante, produtos de baixo valor agregado. Putin disse que o nível está longe do limite e que os investimentos russos já chegam à casa dos bilhões de dólares, sem apresentar a cifra.
O que ficou acertado foi o calendário. Os líderes decidiram por unanimidade manter as cúpulas regulares, com data e sede da próxima a serem combinadas depois. A Declaração de Moscou reafirma o compromisso dos signatários com uma ordem mundial multipolar baseada na Carta da ONU, texto que serve tanto para a África cobrar reforma das instituições financeiras quanto para a Rússia cobrar alinhamento em votações.
A pergunta que a cúpula deixa aberta é o que ela compra, em concreto, para cada lado. Moscou leva uma foto com chefes de Estado, que é o argumento de que não está isolada, e uma declaração dos signatários sobre multipolaridade. A África, por sua vez, leva grãos, fertilizantes, armas e vagas em universidades russas, além do apoio de Moscou à reforma do FMI e a um assento no Conselho de Segurança. Falta o que o continente mais pediu, na voz do próprio copresidente da cúpula: fábricas, cadeias de valor e investimentos que não dependam do humor de uma guerra na Europa.