Fuga de Flávio Bolsonaro expõe negações cruzadas entre Brasília, Buenos Aires e Washington
Buenos Aires negou a passagem pela manhã e a confirmou na madrugada; o senador cruzou a fronteira com o passaporte italiano e desembarcou em Miami com o diplomático cancelado pela Polícia Federal.
Na noite de 25 de outubro de 2026, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a apreensão dos passaportes do senador Flávio Bolsonaro e a entrega de eventuais documentos estrangeiros no prazo de 24 horas, no âmbito do inquérito em que ele é investigado por lavagem de dinheiro ao lado do advogado Willer Tomaz. A Polícia Federal (PF) intimou o senador às 11h (UTC-3) de 26 de outubro, e o prazo venceu às 11h do dia seguinte sem que nenhum documento chegasse à corporação, que então cancelou nos seus sistemas todos os passaportes brasileiros do parlamentar, inclusive o diplomático (g1). O pedido da corporação chegou ao ministro sete minutos depois de o Tribunal Superior Eleitoral confirmar a derrota do senador, conforme a coluna de Malu Gaspar no Jornal O Globo (GLOBO), e foi atendido na mesma noite sem consulta prévia à Procuradoria-Geral da República, registrou a Folha de S.Paulo (Folha).
Derrotado no segundo turno de 25 de outubro de 2026 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que obteve 51,79% dos votos, o senador deixou o Brasil na mesma noite em que o prazo vencia. O percurso até Miami está registrado em três etapas que comunicados oficiais e rastreamento de voo tornaram públicas entre a madrugada e a manhã de 28 de outubro de 2026: a entrada na Argentina por terra, o embarque em Puerto Iguazú e a escala em Guayaquil, no Equador, antes do pouso no aeroporto executivo de Miami-Opa Locka às 10h24 (UTC-3) (g1).
A versão argentina mudou duas vezes em 24 horas. Na tarde de 27 de outubro de 2026, o governo de Javier Milei informou ao Brasil que não havia registro de entrada do senador por posto migratório e que a averiguação feita na aeronave estacionada em Puerto Iguazú não encontrou “nenhum plano de voo que incluía a família Bolsonaro”. O porta-voz presidencial, Adrián Ravier, negou na mesma tarde que houvesse pedido de asilo ao país. Às 2h01 de 28 de outubro, a Direção Nacional de Migrações publicou outro comunicado, no X: às 22h50 de 27 de outubro de 2026, Flávio, a esposa Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro e as duas filhas ingressaram pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, “com documentação hábil de viagem sem nenhum impedimento legal para o ingresso no país” (BBC).
A entrada na Argentina foi feita com o passaporte italiano, que o senador tem desde 2023, enquanto a esposa e as filhas apresentaram passaportes brasileiros, informou a Folha de S.Paulo. Os quatro não passaram por posto de controle da PF na saída porque a legislação brasileira não exige registro de saída de brasileiros por fronteira seca, e o senador entrou nos Estados Unidos em 28 de outubro de 2026 com o passaporte diplomático brasileiro, justamente o documento que a corporação havia cancelado, conforme o registro do governo estadunidense consultado pelo jornal.
Às 23h30 de 27 de outubro de 2026, a família embarcou no jato Gulfstream G400 de prefixo “LV-JQW”, operado pela empresa de táxi aéreo Baires Fly, com plano de voo declarado para Guayaquil; a decolagem de Puerto Iguazú ocorreu às 23h52, segundo o Valor. A aeronave pousou no Equador às 5h46 (UTC-3) de 28 de outubro, ficou cerca de meia hora em solo e decolou rumo aos Estados Unidos sobrevoando Paraguai, Bolívia e Peru, trajeto que evitou o espaço aéreo brasileiro.
Washington se pronunciou antes do pouso. O Departamento de Estado respondeu por e-mail ao GLOBO que “emitirá vistos para Flávio Bolsonaro e sua família e permitirá sua entrada nos Estados Unidos”, e o presidente Donald Trump afirmou na noite de 27 de outubro que aprovaria a entrada do aliado sem saber onde ele estava: “Ouvi dizer que ele estava na Argentina, mas não sei onde está agora” (O Globo). Horas depois, em Maryland, Trump acrescentou que os Bolsonaro são “boas pessoas” e que “a eleição foi muito estranha”, sem apresentar indício de irregularidade (Valor). Aliados do senador passaram a divulgar que ele receberia asilo político, mas o que o governo estadunidense confirmou foram vistos de entrada, e nenhum anúncio de asilo foi feito até a tarde desta quarta-feira.
Do lado brasileiro, o desembarque foi seguido de silêncio. Flávio desceu do jato acompanhado da mulher e das duas filhas e entrou num carro que o esperava na saída do aeroporto. O jornalista Paulo Figueiredo, aliado da família, anunciou para a tarde de 29 de outubro uma entrevista coletiva em Miami, dizendo que o senador está “bem, em segurança e descansando com a família” e que a imprensa divulgou “notícias falsas e desencontradas” (R7). Os advogados que o defendem dizem ter combinado com ele a entrega dos passaportes na manhã de 27 de outubro, antes do fim do prazo, e contam que tentaram contato sem resposta: as mensagens registravam envio, não entrega. Integrantes da defesa passaram a trabalhar com a hipótese de que Moraes decretará a prisão preventiva do senador e pedirá sua inclusão na difusão vermelha da Interpol (O Globo).
À tarde de 28 de outubro, o silêncio de Flávio terminou com uma carta. Divulgada pelo empresário Paulo Figueiredo, que vive nos Estados Unidos, a carta abre com o senador se dirigindo “ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e agradecendo a Milei “pela coragem, senso de justiça e legalidade” e a Trump e ao “maravilhoso povo americano” por o acolherem. Ele atribui a derrota a uma “fraude eleitoral”, sem apresentar prova, e responsabiliza o ministro Cristiano Zanin, do STF, por ter permitido que Lula “acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”. Zanin prorrogou a votação até as 19h depois de relatos de redução da frota de ônibus em São Paulo e na Bahia; com as duas horas extras, 34,3 mil votos foram registrados após as 17h, e a prorrogação foi pedida pelas duas campanhas, a de Lula em todo o país e a de Flávio em cinco estados. A carta afirma que “não existe nenhum mandado de prisão” contra ele e recusa o rótulo de foragido: “não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece”. Flávio anuncia que vai se dirigir “regularmente” ao eleitorado e que apresentará “uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular” por “todos os meios pacíficos e legítimos” (Universo Online (UOL), Metrópoles).
A reação do governo brasileiro foi de contenção. Lula classificou a saída de “ato vergonhoso” ao receber apoiadores no Palácio da Alvorada, no dia em que completou 81 anos: “O cidadão que sai escondido do seu país é porque deve alguma coisa. Ele deveria ter entregue o passaporte” (Agência Brasil). Segundo o blog da jornalista Tainá Falcão, na CNN Brasil, o presidente orientou os ministros a evitar manifestações recorrentes sobre o caso e a deixar os desdobramentos com a PF e o Ministério da Justiça, para não alimentar o discurso de perseguição (CNN Brasil). No Congresso, os deputados Lindbergh Farias (Partido dos Trabalhadores, Rio de Janeiro) e Rogério Correia (Partido dos Trabalhadores, Minas Gerais), com a deputada eleita Ana Elisa (Partido dos Trabalhadores, Minas Gerais), pediram a Moraes a prisão preventiva do senador e a difusão vermelha da Interpol, além de manifestação urgente da Procuradoria-Geral da República (PGR). A PF avalia pedir ao STF o bloqueio de bens e valores do senador, medida que Moraes já aplicou ao amigo dele Willer Tomaz e ao irmão Eduardo Bolsonaro, e investigadores reconhecem que uma ordem de prisão teria efeito prático reduzido, porque o governo americano já autorizou a permanência dele nos Estados Unidos (O Globo).
Em Buenos Aires, a confirmação da passagem virou defesa da legalidade do próprio ato. “Se cumplieron todos los pasos legales”, disse uma fonte da Casa Rosada ao La Nación, que ouviu da Direção Nacional de Migrações que o senador não tinha restrição nem alerta internacional vigente. O diretor de Comunicação Digital da Presidência, Juan Pablo Carreira, comemorou publicamente: “Flavio Bolsonaro está a salvo de las garras del comunismo”. A presença do assessor Santiago Caputo no aeroporto de Puerto Iguazú no momento do embarque, noticiada pela imprensa argentina, sustenta a suspeita da PF de que o governo argentino colaborou com a operação; o entorno de Caputo nega, e a oposição argentina passou a pedir explicações no Congresso à ministra da Segurança, Alejandra Monteoliva, ao chanceler Pablo Quirno e ao chefe de Gabinete, Diego Santilli (La Nación, O Globo). O Itamaraty não se pronunciou até esta quarta-feira, e, segundo o jornal argentino, a orientação brasileira é não apontar para o governo de Milei: “es un tema entre el senador y el Poder Judicial”.
O que a decisão de Moraes continha é mais estreito do que a versão corrente. Segundo a Folha, o despacho determinava o cancelamento dos passaportes brasileiros, a entrega do documento estrangeiro e a proibição de contato com Willer Tomaz, sem ordem explícita de proibição de sair do território nacional; o Valor apurou que a PF, embora monitorasse a movimentação do senador, não tinha decisão do STF que a autorizasse a detê-lo. Sem mandado de prisão, juristas ouvidos pela BBC News Brasil dividiram-se sobre o rótulo de foragido, e o descumprimento da cautelar se enquadra no crime de desobediência, do artigo 330 do Código Penal, com pena de detenção de 15 dias a 6 meses e multa. A decisão citou o risco de fuga apontado pela PF, que mencionou a manifestação pública do irmão Eduardo Bolsonaro recomendando a saída e a existência de estruturas já montadas no exterior.
A pergunta que o caso deixa aberta é quem, em cada uma das três capitais, autorizou o quê e sob qual regra. A migração argentina afirma ter cumprido a legislação local ao registrar uma entrada com documento válido; o Departamento de Estado afirma ter emitido vistos; a PF afirma que não tinha ordem para deter um senador com passaporte cancelado. A PF ainda tenta reconstruir o trecho entre Brasília e a Ponte Tancredo Neves, o único sem registro oficial, e é sobre esse trecho que os três governos não têm o que dizer.