Machado e Delcy convergem em calendário eleitoral e abrem a economia da Venezuela
Delcy Rodríguez anunciou eleições com Conselho Nacional Eleitoral renovado e devolução de bens expropriados, sem data, e María Corina Machado, na primeira coletiva após voltar, disse que Washington sugere a presidencial para 2027. A oposição e o governo interino disputam a condução da mesma transição.
Em 29 de outubro de 2026, a Venezuela ouviu duas promessas de eleição com poucas horas de intervalo. A presidente interina, Delcy Rodríguez, falou primeiro, pela televisão estatal, e anunciou que haverá eleições “todas as que manda nossa Constituição, organizadas por uma autoridade eleitoral renovada e com o mundo como testemunha”. María Corina Machado respondeu de Caracas, na primeira entrevista coletiva desde que voltou ao país: disse que os Estados Unidos sugeriram a eleição presidencial para 2027 e que o secretário de Estado, Marco Rubio, apoia essa data. Nenhuma das duas publicou o calendário.
Dois relógios
A opositora citou como próximos passos o que o Departamento de Estado declarou nos dias anteriores: nomeação imediata de um Conselho Nacional Eleitoral (CNE) renovado, cumprimento dos prazos constitucionais e eleição presidencial no ano seguinte. Machado, Nobel da Paz de 2025, voltou ao país no domingo, 25 de outubro de 2026, depois de sete tentativas frustradas, e atravessou cerca de cinco estados em uma caravana de mais de oito horas até Caracas, recebida por milhares de pessoas que pediam a presidencial para o ano que vem.
Do lado do governo interino, a ordem é outra. Delcy disse, no pronunciamento pela Venezolana de Televisión (VTV), que o horizonte político do país não se mede por uma data no calendário e o descreveu como uma sequência de objetivos a alcançar. Prometeu usar “as leis e as instituições que existem” para chegar a “uma autoridade eleitoral aceita por todos” e lembrou que a escolha do CNE está entre os pendentes da mesa de diálogo entre o chavismo e um setor da oposição, instalada em agosto de 2026, já com três ciclos de contatos.
O pacote econômico
O pronunciamento de Delcy foi mais que um discurso de calendário. O governo anunciou a avaliação para devolver aos antigos donos propriedades expropriadas, a privatização de empresas não essenciais e a assinatura de 61 contratos de hidrocarbonetos com investidores nacionais e estrangeiros, com outros 44 em negociação. O Poder360 informou em 29 de outubro de 2026 que a lista inclui tratativas para ouro, alumínio e ferro, a libertação de mais de 1.000 detidos, a proibição de prisões sem mandado fora de flagrante e a revisão da Lei Contra o Ódio, com o fim das sanções penais. Para 2027, Delcy prometeu quatro reajustes salariais atrelados ao crescimento dos trimestres anteriores.
O pano de fundo é uma transição sem roteiro. Nicolás Maduro foi preso em uma operação dos Estados Unidos em Caracas, em janeiro de 2026, e responde em Nova York a acusações de tráfico de drogas e tortura, que nega. Delcy ocupa a Presidência interina há quase dez meses e diz não esconder que vem do “sistema”, o chavismo. A eleição de 2024, que declarou Maduro vencedor, é contestada pela oposição como fraude, e Machado, impedida de concorrer, sustenta que o representante dela venceu.
A distância entre os dois palcos
Os dois discursos não se encontraram. Machado disse que não recebeu nenhuma mensagem dos Estados Unidos nem de Delcy Rodríguez e que não há encontro previsto entre as duas. Delcy afirmou que só quem conhece o Estado a fundo pode conduzir reformas e pediu que a julguem pelos fatos: “menos briga, mais solução”.
Para o Brasil, o desfecho interessa por três vias: a fronteira em Roraima, os venezuelanos que atravessam para cá e o petróleo de um país que acaba de assinar 61 contratos com investidores nacionais e estrangeiros.
O calendário prometido nos dois palcos continua sem data. Para a oposição, o ano é 2027 e o aval vem de Washington. Para o governo interino, o relógio é a Constituição e o ritmo da mesa de diálogo. Enquanto nenhum dos dois publica a data, a transição venezuelana segue com dois condutores e um fiador de fora.