Israel apura 89,8% dos votos e nenhum bloco alcança maioria
O bloco de Netanyahu tem 53 das 120 cadeiras do Knesset e o de Eisenkot, 48, segundo o Comitê Central Eleitoral. Com 19 assentos, recorde, os partidos árabes passam a fechar qualquer maioria – e quase todos os partidos judeus recusam governar com eles.
O Comitê Central Eleitoral de Israel informou na noite de 28 de outubro de 2026 que, com 89,8% dos votos contados, o bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ficou com 53 das 120 cadeiras do Knesset, o Parlamento israelense, e o bloco liderado por Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior e candidato do partido Yashar, com 48. Nenhum dos dois alcança as 61 cadeiras necessárias para governar sozinho. A contagem parou nesse patamar na noite de quarta-feira, à espera dos envelopes duplos.
Os dois partidos árabes, a Lista Conjunta, de Yousef Jabareen, e Ra’am, de Mansour Abbas, somaram 19 cadeiras, o melhor resultado da história da representação árabe no Parlamento: o recorde anterior era de 15 cadeiras, e o Knesset que acaba de ser dissolvido tinha 10. O comparecimento chegou a 77,7% dos 7.331.981 eleitores aptos, o mais alto desde 1999 e 7,1 pontos acima do de 2022, número que o presidente Isaac Herzog chamou de “emblema de honra para a sociedade israelense”, segundo a BBC.
A apuração desmentiu as pesquisas de boca de urna divulgadas na noite de 27 de outubro de 2026, que davam a Eisenkot 52 a 53 cadeiras contra 50 do bloco de Netanyahu, segundo a Al Jazeera. Ao longo da contagem, o Likud virou o maior partido, com 26 cadeiras, seguido de Yashar, com 21. O bloco de Netanyahu tinha 68 cadeiras no Knesset que acaba de ser dissolvido e perde 15 nesta contagem.
A composição do Knesset eleito, partido por partido, é esta: Likud, 26 cadeiras; Yashar, 21; B’Yachad, de Naftali Bennett, 12; Lista Conjunta, 12; Democratas, de Yair Golan, 8; e, com 7 cada, o Yisrael Beytenu, de Avigdor Liberman, o Shas e o Judaísmo Unido da Torá, os dois partidos ultraortodoxos, o Otzma Yehudit, de Itamar Ben-Gvir, e a Ra’am. O Sionismo Religioso, do ministro das Finanças Bezalel Smotrich, fecha a conta com 6. Ficaram fora do Parlamento o Reservistas, de Yoaz Hendel, com 2,63% dos votos, o Povo de Israel, de Ofer Winter, com 1,61%, e o Público Haredi, com 0,19%, os três abaixo do piso de 3,25%.
“É proibido, simplesmente proibido, colocar Israel em risco formando um governo que se apoie em partidos árabes antissionistas”, disse Netanyahu na sede do Likud, em Jerusalém, depois de declarar que a direita obteve uma “grande maioria”.
A aritmética diz outra coisa. Com 19 cadeiras, os partidos árabes passam a fechar qualquer maioria: 53 mais 19 chegam a 72, e 48 mais 19, a 67. O veto é político. Nenhum partido judeu, com exceção dos Democratas, de Yair Golan, aceita governar junto com Ra’am ou com a Lista Conjunta. Eisenkot já condicionou essa aliança ao reconhecimento de Israel como Estado judeu e democrático e à definição do Hamas como organização terrorista que deve ser destruída, e os partidos de direita do próprio bloco dele rejeitam o acordo.
Jabareen disse à agência France-Presse (AFP) que a Lista Conjunta não entra na coalizão. “Não vemos a possibilidade de fazer parte de uma coalizão de governo israelense nas circunstâncias políticas atuais, sobretudo diante da guerra em curso em Gaza e dos assentamentos na Cisjordânia”, afirmou. “No entanto, com o objetivo de derrubar este governo, seria possível apoiarmos um governo alternativo de fora da coalizão”, disse ele ao Middle East Eye.
Mansour Abbas, que integrou o governo de curta duração formado depois da eleição de 2021, disse na noite de 27 de outubro de 2026 que esperava que “os números fechem e nós, o bloco da mudança e a Ra’am, possamos garantir 61 cadeiras no Knesset”. Yair Golan, dos Democratas, escreveu nas redes sociais que existe “a oportunidade de formar um governo de mudança em parceria” com os partidos árabes.
Em 28 de outubro de 2026, o Likud acusou os adversários de terem “roubado” a eleição, citando “suborno, ameaças, violência, fraude e uso de programa proibido para estimular eleitores”. A legenda não apresentou provas, e o Comitê Central Eleitoral disse que vai examinar as alegações na revisão pós-eleitoral.
Faltam entre 430 mil e 480 mil votos de envelope duplo, os de soldados, policiais, presos, diplomatas em posto no exterior, doentes e desalojados que não votaram na seção de origem. O comitê começou a contá-los na madrugada de quinta-feira, 29 de outubro de 2026, e prevê terminar até a noite do mesmo dia, depois de conferir no Knesset, contra o registro de eleitores, se cada um não votou também na seção de origem. Antes da eleição, o comitê trabalhava com uma estimativa de 600 mil a 650 mil envelopes, número que a contagem preliminar reduziu.
Esses votos não formam uma cota separada. Entram no total nacional e redistribuem cadeiras entre os partidos: como cada cadeira vale cerca de 40 mil votos, o volume equivale a 11 ou 12 cadeiras, mas o efeito medido em eleições anteriores foi de uma ou duas. Em 2022, os envelopes tiraram uma cadeira do Judaísmo Unido da Torá e deram outra ao Yisrael Beytenu, sem mudar o equilíbrio entre os blocos; em 2021, a contagem reduziu a Ra’am a quatro cadeiras e elevou a Meretz a seis, também sem inverter a correlação de forças.
O resultado oficial está previsto para 4 de novembro de 2026, e o prazo final para Herzog indicar quem forma governo é 11 de novembro. O presidente disse que vai receber o resultado das mãos do juiz Noam Sohlberg, vice-presidente do Supremo Tribunal e presidente do comitê eleitoral, e pediu que os partidos evitem uma nova eleição: “Temos de fazer tudo o que pudermos, e digo isso desde antes da eleição, certamente depois de ontem, para evitar outra rodada de eleições. Por isso, espero que todos que vierem aqui venham de mente aberta.” Auxiliares da Presidência calculam que os contatos discretos comecem já nesta sexta-feira, 30 de outubro.
O escolhido tem 28 dias para montar a coalizão, prorrogáveis por 14, e o prazo máximo cai em 23 de dezembro de 2026. Se falhar, Herzog pode passar a tarefa a outro deputado, com 28 dias e sem prorrogação; um terceiro candidato, indicado por escrito por 61 deputados, teria 14 dias. Se nenhum fechar coalizão, o Knesset se dissolve e o país volta às urnas em 90 dias, com Netanyahu no cargo de primeiro-ministro interino. Foi a primeira eleição para o Knesset desde os ataques de 7 de outubro de 2023 e as guerras que se seguiram em Gaza, no Líbano e no Irã.
O que a contagem assentou é uma maioria aritmética sem maioria política. As 19 cadeiras árabes fecham a conta contra Netanyahu no papel: o bloco de Eisenkot chega a 67, contra 53 do bloco de Netanyahu; na outra combinação, o bloco de Netanyahu chega a 72, contra 48. Na prática, a recusa dos partidos judeus, com exceção dos Democratas, converte essa maioria em impasse. O impasse devolve a decisão a Herzog, que terá de escolher entre entregar o mandato a um primeiro-ministro sem maioria própria e convocar o país a uma nova eleição.