China substitui voos militares frequentes por presença constante de navios junto a Taiwan
O envio de caças em torno da ilha caiu pela metade em 2026, enquanto as detecções de navios oficiais chineses subiram 150%; Taiwan registrou 49 aeronaves em 24 horas.
A China mantém mais de 100 navios da Marinha e da Guarda Costeira no Pacífico ocidental, concentrados sobretudo a leste de Taiwan e no mar da China Meridional, segundo mapa publicado na semana de 4 de novembro de 2026 por Joseph Wu, secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional de Taiwan, em sua conta no X. O mapa traz as posições das embarcações, incluindo formações de três dos cinco comandos regionais do Exército de Libertação Popular e o grupo de combate do porta-aviões Liaoning, o mais antigo dos três porta-aviões chineses. Na mesma semana, a China reforçou a atividade aérea em torno da ilha.
O Ministério da Defesa Nacional de Taiwan informou ter detectado 49 aeronaves militares chinesas nas 24 horas anteriores, o maior número diário de 2026, e 122 aeronaves desde o início de novembro, mais da metade de todos os registrados em outubro. O Liaoning partiu para o Pacífico ocidental em 14 de outubro de 2026, para manobras que Pequim negou estarem dirigidas contra um alvo específico. “A República Popular da China é uma autêntica valentona”, escreveu Wu. “Taiwan se mantém alerta. Não vamos provocar, mas não nos curvamos a nenhuma pressão.”
O que mudou de fato em 2026
A leitura do conjunto mostra uma troca de instrumento em vez de uma trégua. Numa compilação dos relatórios diários do ministério taiwanês, os pesquisadores Wei-Hao Ho e Lyle Morris, do Centro de Análise da China, da Asia Society, registram queda de 51,1% nas surtidas de aeronaves militares chinesas nos 231 dias comparáveis de 2025 e 2026, de 3.603 para 1.763. Os dias sem nenhuma aeronave detectada passaram de 12 para 43, e os dias com mais de 50 surtidas caíram de oito para zero. A proporção de voos que cruzaram a linha mediana ou entraram na zona de identificação aérea de Taiwan ficou em 71,3% nos dois anos, o que afasta a hipótese de voos menos numerosos e mais agressivos.
No mesmo período, segundo o mesmo levantamento, as detecções de navios oficiais chineses subiram de 183 para 457, alta de 149,7%, e os dias com cinco ou mais embarcações desse tipo passaram de um para 33. De junho de 2026 em diante, a média foi de cerca de 3,9 navios oficiais por dia, contra 0,9 entre janeiro e maio de 2026. Os registros da Administração da Guarda Costeira de Taiwan mostram que a Guarda Costeira chinesa responde pela maior parte do aumento, e não a Marinha.
A jurisdição como arma
A mudança geográfica é o ponto central. Desde junho de 2026, formações da Guarda Costeira chinesa operam a leste da ilha principal, ampliando um padrão que antes se concentrava em Kinmen e Matsu, nas ilhas Pratas e em Itu Aba, no arquipélago de Spratly. Em 4 de julho de 2026, uma formação liderada pelo navio Xiushan substituiu a formação anterior, do Daishan, e Pequim descreveu a operação como “patrulhas de aplicação da lei normalizadas”.
A expressão importa. Ao classificar a presença como patrulha policial, a China reivindica jurisdição sobre águas que Taiwan trata como suas e desloca o conflito para um patamar abaixo do confronto militar aberto: navios que permanecem no mar por semanas, em vez de aeronaves que decolam e voltam à base. O custo para Taipei é de desgaste contínuo, e o custo para quem apoia Taiwan é político, porque patrulhas de guarda costeira não disparam os mesmos mecanismos de resposta que uma invasão.
O total de atividade observada caiu 30% em relação ao ano anterior, e o aumento de navios oficiais compensa apenas 14,9% da queda nas surtidas aéreas. A conclusão que os dados sustentam é que a pressão mudou de composição e de geografia, com menos volume e mais permanência.
O risco que fica no mar
A troca também cria um problema operacional. Navios de guarda costeira navegam a curta distância uns dos outros, em manobras de interceptação, e não têm os canais de desescalada que as forças armadas mantêm entre si. Um choque entre embarcações cria um incidente que nenhum dos lados planejou e recai sobre uma agenda diplomática já sobrecarregada.
A pergunta que o deslocamento deixa aberta é quanto tempo Pequim pode manter dezenas de navios ao largo de Taiwan sem que uma colisão transforme a patrulha normalizada em crise aberta.