EUA liberam 500 Patriot e a guerra na Ucrânia se decide na rede elétrica
O Departamento de Estado aprovou a venda de 500 mísseis interceptores Patriot por US$ 2,1 bilhões, pagos por Canadá, Alemanha e Noruega, sem prazo de entrega. No mesmo dia, ataques russos deixaram mais de 350 mil consumidores sem energia em Dnipro e um incêndio atingiu a refinaria que produz combustível de aviação para a Força Aeroespacial russa.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos autorizou em 30 de outubro de 2026 a venda de 500 mísseis Patriot Advanced Capability-3 (PAC-3) à Ucrânia, por US$ 2,1 bilhões. O Departamento de Estado informa, na nota de 30 de outubro de 2026, que a compra é paga por Canadá, Alemanha e Noruega, por meio do programa Jumpstart e do empréstimo de apoio à Ucrânia da União Europeia, sem dinheiro dos Estados Unidos, e que não há prazo de entrega. O contratante é a Lockheed Martin, e o governo estadunidense diz não ter conhecimento de nenhum acordo de compensação industrial.
O modelo aprovado é a versão mais avançada do Patriot em serviço e uma das poucas armas capazes de derrubar mísseis balísticos. O estoque ucraniano de interceptores havia acabado no início de outubro, segundo a emissora Cable News Network (CNN). A autorização saiu depois de o presidente Volodymyr Zelensky acusar o Pentágono de atrasar a entrega dos mísseis que outros países já haviam comprado para Kiev, segundo a Associated Press. Na mesma fala, ele disse que os avisos de inteligência dos Estados Unidos sobre ataques iminentes foram interrompidos e que o serviço de internet por satélite Starlink teve a operação limitada, e a Ucrânia afirma que ambos foram restabelecidos.
O mesmo dia no outro lado do cabo
O anúncio coincidiu com a maior rodada de ataques russos contra a rede elétrica ucraniana da semana. Ataques cortaram a energia de mais de 350 mil consumidores em Dnipro e nas localidades vizinhas, segundo o chefe da administração militar regional, Oleksandr Hanzha. Na madrugada anterior, um ataque a uma plataforma ferroviária de Dnipro matou 14 pessoas, e outros seis morreram em ações ao longo do dia, segundo autoridades ucranianas. Zelensky disse que as forças ucranianas destruíram dois caças-bombardeiros Su-34 e atingiram um lançador de mísseis Iskander.
Do lado russo, o alvo foi uma refinaria. O governador da província de Samara, Viacheslav Fedorischev, culpou a Ucrânia pelo ataque com drones a Novokuibyshevsk e afirmou que não houve vítimas. O Ministério da Defesa da Rússia disse ter derrubado 1.043 drones sobre Samara e outras 18 regiões naquela madrugada. A refinaria de Novokuibyshevsk pertence ao grupo Rosneft desde 2007, processa cerca de 8,8 milhões de toneladas de petróleo por ano e produz combustível de aviação para as Forças Aeroespaciais russas. A Ucrânia não reivindicou o ataque.
A autoria, no entanto, caiu numa zona incômoda. O jornal The Wall Street Journal noticiou, em reportagem resumida pelo Politico no mesmo dia, que Kiev aceitou uma pausa nos ataques a refinarias russas sob pressão do presidente Donald Trump, para durar até depois das legislativas de 3 de novembro de 2026. A trégua é informal, e o incêndio de 30 de outubro caiu dentro dela. Em 11 de outubro de 2026, quando Trump anunciou um cessar-fogo de energia, a Ucrânia parou por 72 horas e o Kremlin seguiu bombardeando a rede elétrica. “Isso não ajudou. Houve todo tipo de retórica e ninguém nos agradeceu por aqueles três dias”, disse Zelensky a repórteres em Kiev.
Dois estoques, um inverno
O que se decide agora tem menos a ver com frente de batalha do que com estoque. A Rússia gasta mísseis balísticos contra subestações e turbinas; a Ucrânia gasta drones de longo alcance contra refinarias que produzem combustível para a aviação militar russa e diesel para o mercado interno. Cada lado conta quantos interceptores ou quantos geradores consegue repor antes do frio. Washington liberou os mísseis que Zelensky pedia havia um mês, mas não disse quando eles chegam nem em que quantidade por lote, e o governo estadunidense liberou em 9 de outubro de 2026 a exportação de diesel russo ao mercado global. Em 30 de outubro, o Pentágono pediu aos aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que moderassem a crítica pública à Rússia, segundo a Reuters.
O inverno vai medir qual dos dois lados repõe mais rápido. A autorização dos Estados Unidos devolve à Ucrânia o direito de comprar os interceptores; ter os mísseis na rampa de lançamento é outro passo, e o prazo dele não foi divulgado. Até a primeira entrega, cada apagão em Dnipro é uma conta que a defesa antiaérea ainda não consegue fechar.