Guerra no Golfo multiplica lucro de Shell, TotalEnergies e Repsol
A Shell fechou o terceiro trimestre de 2026 com margem de refino de US$ 42 por barril, o dobro da anterior, e a TotalEnergies com lucro ajustado de US$ 9,1 bilhões, alta de 127%. O gás europeu passou de € 100 por megawatt-hora e a conta chega ao consumidor.
Shell, TotalEnergies e Repsol apresentaram nesta quinta-feira, 29 de outubro de 2026 resultados trimestrais que devolveram às petrolíferas europeias o melhor patamar desde 2022, impulsionados por margens de refino recordes e pelos preços de petróleo e gás que a guerra no Oriente Médio sustentou. O gás natural negociado na Europa passou de € 100 (cerca de US$ 111) por megawatt-hora pela primeira vez em quatro anos na quarta-feira, 28 de outubro de 2026, por causa das dificuldades de trânsito dos carregamentos de gás natural liquefeito vindos do Oriente Médio e da queda das reservas europeias, informou a France 24, citando a agência France-Presse.
A britânica Shell registrou lucro atribuível aos acionistas de US$ 12,057 bilhões no terceiro trimestre, contra US$ 5,322 bilhões um ano antes, segundo o relatório da própria companhia. O lucro ajustado, medida que exclui itens extraordinários e o efeito dos estoques, ficou em US$ 10,814 bilhões, acima dos US$ 9,836 bilhões do segundo trimestre. O motor foi o refino: a margem global chegou a US$ 42 por barril, contra US$ 24 nos três meses anteriores. A empresa elevou o programa de recompra de ações para US$ 5 bilhões, de US$ 3 bilhões. O diretor-presidente, Wael Sawan, falou de uma perturbação ainda severa do sistema energético mundial.
A francesa TotalEnergies teve lucro líquido ajustado de US$ 9,1 bilhões, alta de 127% sobre os US$ 4 bilhões de um ano antes e de 51% sobre o segundo trimestre, de acordo com o comunicado da empresa. O endividamento caiu para menos de 10% do capital, o dividendo interino foi mantido em € 0,90 por ação e a companhia anunciou US$ 2,5 bilhões em recompra no quarto trimestre de 2026 e no primeiro de 2027. A divisão de refino e químicos ganhou US$ 3,6 bilhões, mais de cinco vezes o resultado de um ano antes, e a margem de refino europeia subiu para US$ 33,2 por barril, contra US$ 13,5 no trimestre anterior, segundo o Infobae. O presidente, Patrick Pouyanné, descreveu as margens como historicamente altas.
A espanhola Repsol quadruplicou o lucro líquido dos primeiros nove meses do ano, para € 5 bilhões, cerca de US$ 5,6 bilhões. Shell e TotalEnergies, que já haviam crescido nos dois primeiros trimestres de 2026, avisaram que vão ampliar a remuneração dos acionistas.
O mecanismo é uma conta de arbitragem entre a guerra e as refinarias que ficaram fora dela. A produção e a exportação de derivados no Oriente Médio seguem gravemente afetadas, e as refinarias não atingidas aproveitam a oferta global menor. Ao mesmo tempo, os bombardeios ucranianos contra a infraestrutura energética russa levaram Moscou a proibir a exportação de produtos como gasolina e diesel, retirando mais oferta do mercado.
A conta chega ao consumidor. As faturas de energia e os combustíveis em alta alimentam a inflação que pressiona famílias e empresas na Europa, e na França o encarecimento da vida desembocou em protestos em escala nacional. A porta-voz do governo francês, Maud Bregeon, pediu que a TotalEnergies seja exemplar e repasse para os preços a vantagem obtida com a liberação de reservas estratégicas de diesel.
Na América Latina, o movimento foi o mesmo. A argentina Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF) registrou lucro de US$ 2,503 bilhões antes de juros e impostos, e a Petrobras marcou recorde de produção no trimestre, segundo o Infobae. A mexicana Pemex ainda não divulgou o terceiro trimestre e acumula prejuízos no ano. ExxonMobil, Chevron e British Petroleum (BP) divulgam os seus resultados na sexta-feira, 30 de outubro de 2026.
Para o leitor brasileiro, o número que interessa não está nos relatórios europeus: a mesma alta de margem que engorda o resultado de Shell e TotalEnergies encarece o diesel e a gasolina na bomba, numa economia em que o preço do combustível acompanha a referência internacional. A empresa brasileira produz mais; o consumidor paga a diferença entre a oferta que falta no Golfo e o preço que se forma aqui.
O ciclo tem prazo atrelado ao campo de batalha. Enquanto a oferta do Oriente Médio seguir interrompida e as refinarias russas continuarem sob ataque, o lucro das europeias responde mais à geografia do que à eficiência: o que se quebra no Golfo vira margem em Roterdã e em Le Havre, e a conta do protesto fica com quem paga a conta de luz.