Paraguai intervém no Ueno Bank e deixa 3 milhões de clientes sem acesso às suas economias
O índice de solvência do ueno bank caiu a 5,56%, menos da metade do mínimo de 12%, depois de empréstimos a empresas do próprio grupo controlador. O banco guardava US$ 850 milhões em dinheiro público, dos quais até US$ 380 milhões do fundo de pensões.
O Banco Central do Paraguai (BCP) abriu em 2 de novembro de 2026 o procedimento de resolução do ueno bank, depois de constatar que o índice de solvência da entidade havia caído abaixo da metade do mínimo exigido pela lei. A decisão, tomada por unanimidade pelo diretório do banco central, congelou a poupança de milhões de clientes: agências fechadas, aplicativo fora do ar, cartões bloqueados e caixas eletrônicos desligados em todo o país. O banco tinha cerca de três milhões de clientes até setembro de 2026 e guardava cerca de US$ 850 milhões em dinheiro público.
Os números da inspeção explicam a decisão. O índice de solvência tinha caído a 5,56%, contra o mínimo regulatório de 12%. A série de inspeções que antecedeu a resolução apontou deficiências na avaliação de risco de crédito, inconsistências nas informações usadas para aprovar empréstimos e operações com empresas ligadas aos acionistas do banco. Oito executivos foram detidos, entre eles o presidente da entidade, Juan Manuel Gustale Cardoni, e o primeiro vice-presidente, Federico Miguel Vázquez Villasanti, um dos fundadores do grupo. A Justiça decretou embargo preventivo de US$ 70 milhões e ₲ 1,62 trilhão sobre bens de diretores e de sociedades acionistas, entre elas U Paraguay, U Holdings e Grupo Vázquez.
Do Credicentro ao maior banco do país em clientes e cartões
O ueno bank começou como financeira. A trajetória está na cronologia do próprio Grupo Vázquez: em 1984, Víctor Hugo Vázquez fundou o Credicentro, uma casa de crédito voltada a pessoas físicas e pequenas empresas. O grupo familiar cresceu por aquisições – Pagopar e Hendyla em 2016, a financeira Crediplus em 2017 – até a primeira fusão tripla de empresas suas listadas na Bolsa de Valores de Assunção, em 2020, ano em que lançou ioio e Vinanzas. Em 2021 vieram a Itti, a J. Fleischman e a Financiera El Comercio, a licença que faltava para operar como banco.
Em 2022, o Credicentro mudou de nome e virou ueno Holding. No ano seguinte, o grupo abriu a U Holdings em Luxemburgo, para internacionalizar a área financeira. E em 2024 veio o salto: o ueno bank absorveu o Visión Banco e passou a ser, pelos números do grupo, a maior entidade do país em quantidade de clientes e em cartões de crédito ativos. O conglomerado reúne mais de 20 empresas e 5.500 funcionários. O banco processava mais de três milhões de transações por dia e concentrava dois de cada três pagamentos eletrônicos no comércio, segundo cálculo da agência EFE.
O mecanismo da quebra
A causa da insolvência está num mecanismo descrito nos autos e resumido na documentação do BCP que sustentou a denúncia. O banco concedeu créditos desproporcionais e saques a descoberto sem garantia suficiente a empresas que não tinham fonte própria de pagamento: Grupo Hendy, Grupo M, Tuiu e Satec. O dinheiro não ficava nas tomadoras. Era transferido em seguida para as centrais do mesmo conglomerado – itti, Redisa, Redipro e Vinanzas –, para quitar dívidas e simular o pagamento regular das parcelas. A manobra contornava os limites legais de financiamento a partes relacionadas e gerou ajustes contábeis de mais de ₲ 1,6 trilhão.
O Ministério Público imputou 27 pessoas por lesão de confiança, conduta indevida em situação de crise, tentativa de estelionato e violação do dever de escrituração comercial: oito diretores do banco e 19 representantes das empresas associadas. Para Vázquez Villasanti, a Promotoria pediu prisão preventiva; para os demais detidos, prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. A quebra alcançou também os fundos de investimento. Em 4 de novembro, o BCP suspendeu temporariamente os resgates de vários fundos mútuos ligados ao banco, sob o argumento de que era preciso determinar o valor real dos ativos e garantir tratamento igual aos cotistas.
O dinheiro dos aposentados
A parte mais delicada da conta é pública. Entre os US$ 850 milhões em fundos do Estado e da Previdência administrados pelo banco, de US$ 355 milhões a US$ 380 milhões eram do Instituto de Previdência Social (IPS), o fundo de pensões e saúde do funcionalismo paraguaio. Os recursos do IPS abasteciam o pagamento de cerca de 32 mil aposentados. Também estava preso no banco o dinheiro da Administração Nacional de Eletricidade (ANDE) e da Itaipu.
A saída encontrada pelo governo foi antecipar o seguro. O presidente Santiago Peña promulgou em 4 de novembro a lei que amplia a Lei 2.334/2003 e autoriza o BCP a pagar um adiantamento de até 40 salários mínimos por depositante, cerca de ₲ 121,76 milhões, em prazo de 24 horas a cinco dias úteis. O valor é descontado do teto permanente do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD), de 75 salários mínimos por pessoa, equivalentes a ₲ 228,3 milhões. Com esse limite, o BCP estima devolver integralmente o dinheiro de 97% a 98% dos pequenos poupadores. Cerca de 87 mil clientes têm saldo acima do teto e seguem sem data para receber o restante.
O calendário começou a andar. A partir desta quinta-feira, 5 de novembro, a Superintendência de Bancos notifica cerca de 1,9 milhão de depositantes, com a meta de efetivar os desembolsos na sexta-feira. Quem já tem conta em outro banco recebe por crédito direto. Os cerca de 280 mil clientes que só operavam com o ueno bank terão contas temporárias abertas em bancos da praça, por 90 dias e sem a papelada habitual.
A conta política
O colapso chegou ao topo do banco central. Carlos Carvallo, que dirigiu o ueno bank antes de assumir a presidência do BCP em 2023, renunciou ao cargo. A renúncia do diretor Marco Aurelio González deixou o órgão sem quórum. Pedro de Jesús Acosta integrou o diretório nesta quarta-feira, 4 de novembro, e foi designado presidente interino.
Santiago Peña ficou no centro da crise por seu histórico acionário. Ele foi sócio da ueno Holding, a matriz do banco, e vendeu a participação em abril de 2025. O presidente classificou o episódio como problema específico de uma entidade e descartou uma crise sistêmica. Na Câmara dos Deputados, blocos da oposição e da bancada dissidente do Partido Colorado reuniram 35 assinaturas num pedido de destituição contra Peña e o vice-presidente, Pedro Alliana, por suposto mau desempenho e conflito de interesses. O documento cita a exposição dos recursos do IPS na entidade. Desde 3 de novembro, poupadores e aposentados se concentram diante de agências fechadas em Assunção, San Lorenzo e Ciudad del Este.
O espelho de 1995
O Paraguai já viu isso antes. A crise de 1995 quebrou mais da metade dos bancos e mais de dois terços das financeiras do país, com efeitos que se estenderam até 1998. O número de instituições financeiras havia saltado de 88 no fim de 1988 para 147 no começo de 1995, num processo de liberalização sem supervisão proporcional, empréstimos a partes relacionadas e corrupção generalizada. O custo estimado ficou entre 10% e 12% do Produto Interno Bruto. Da crise saíram a Lei de Bancos 861, de 1996, a Superintendência de Bancos e o Fundo de Garantia de Depósitos.
O que se repete é o mecanismo. O tamanho é outro. Nos dois casos, o banco cresceu rápido emprestando a quem estava dentro do próprio grupo, e a supervisão chegou depois que o buraco já existia. A diferença é que agora há um fundo de garantia, criado justamente para o dia em que um banco não pagasse. É ele que vai desembolsar ₲ 121,76 milhões por poupador a partir de 5 de novembro. O fundo cobre o pequeno depositante. A conta grande fica com o IPS, com a ANDE e com a praça financeira que o Paraguai construiu para se vender como polo de investimentos da região.
A conta chega ao Brasil por dois lados. A Itaipu é binacional, e recursos paraguaios da usina estavam entre os presos no banco. A fronteira de Ciudad del Este, por onde passa boa parte das compras de brasileiros no país vizinho, teve agências fechadas e filas de clientes sem acesso ao dinheiro.
O Paraguai tem agora um banco a menos, 27 pessoas imputadas, um presidente sob pedido de destituição e um fundo de garantia pagando em cinco dias úteis o que a lei previa para depois. A resolução deixa aberta a pergunta que a crise de 1995 também deixou: quem responde pelo dinheiro que um banco empresta a si mesmo? O FGD protege o poupador pequeno. O prejuízo dos acionistas, do IPS e da ANDE segue sem data para voltar.