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Novaya Gazeta fecha as portas e desliga os servidores em 9 de novembro

A redação anunciou nesta sexta-feira que as autoridades e os serviços secretos a obrigaram a encerrar o trabalho, depois do despejo do imóvel e do corte da plataforma de doações no mesmo dia. O jornal fundado em 1993 teve seis repórteres assassinados.

A redação da Novaya Gazeta anunciou nesta sexta-feira, 30 de outubro de 2026 que encerra as atividades. O jornal trabalha até 9 de novembro de 2026, quando desliga os servidores e fecha o andar que ocupava na travessa Potapovski, no centro de Moscou, onde a equipe esteve por 29 anos.

“Mataram-nos”, diz o título da declaração publicada no site. “A Novaya Gazeta está deixando de existir. As autoridades russas, os serviços secretos russos obrigaram a redação a encerrar seu trabalho”, afirmou o editor-chefe Sergei Sokolov num vídeo no YouTube.

Sokolov descreveu o gesto final na mesma declaração: “Apagaremos as luzes da nossa casa, onde vivemos durante 30 anos. Desligaremos os servidores e vamos embora.”

A soma que se fechou num dia

O aviso de despejo chegou na quinta-feira, 29 de outubro de 2026: a redação tem um mês para sair, sob ameaça de lacrar o andar. No mesmo dia, a plataforma que recebia as doações dos leitores cortou o acesso. “Ou seja, tiraram-nos os meios. Por completo”, diz o texto dos jornalistas, que classifica o conjunto como uma ação coordenada. A declaração dos jornalistas sustenta que as regras alegadas pelos bancos vêm de fora: são externas, impostas pelo aparelho repressivo do Estado, com funcionários do Serviço Federal de Segurança (FSB) sob o teto de cada organização.

O gatilho jurídico tem data. Em 4 de setembro de 2026, o governo russo classificou toda a equipe de redação como “agente estrangeiro”, rótulo que o Kremlin usa para restringir organizações e pessoas que associa a interesses externos. Depois disso, instituições financeiras deixaram de prestar serviço ao jornal, o que derrubou a arrecadação.

O cerco não começou este mês. Em 9 de abril de 2026, agentes do Comitê de Investigação passaram 13 horas no prédio, num processo sobre acesso ilícito a informações de computador e uso ilegal de dados pessoais. O repórter de investigação Oleg Roldugin foi preso no caso e depois posto em prisão domiciliar. Em 15 de outubro de 2026, a casa de Sokolov foi revistada. Para a Anistia Internacional, as medidas finais foram executadas por atores privados, mas o papel das autoridades não está em dúvida: o fechamento é uma perda devastadora para quem procura jornalismo independente na Rússia, disse Denis Krivosheev, diretor-adjunto da entidade para a Europa Oriental e a Ásia Central.

Seis nomes na história

A Novaya Gazeta nasceu em 1993, no rastro da glasnost de Mikhail Gorbachev, e por anos teve parte do financiamento vinda do dinheiro do Nobel da Paz do último líder soviético. Ficou conhecido pelas investigações longas sobre corrupção e abusos de direitos. Seis de seus jornalistas foram assassinados, entre eles Anna Politkovskaia, morta a tiros em 2006 na escada do prédio onde morava em Moscou, depois de cobrir as guerras na Chechênia. Dmitri Muratov, cofundador e editor-chefe por décadas, dividiu o Nobel da Paz de 2021 e dedicou o prêmio aos seis colegas mortos.

Depois da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, a lei russa passou a punir quem chamasse a guerra de guerra. O jornal perdeu o registro de imprensa, teve o site bloqueado e parou a edição impressa. Nas páginas em que a censura exigia eufemismo, publicou espaços em branco. Nadezhda Prusenkova, chefe do serviço de imprensa, contou que a redação se recusou a publicar a versão oficial dos fatos.

O que resta do prédio sai em caixas: os arquivos, a coleção de edições antigas, os livros doados por leitores e dois museus, o da própria Novaya e o de Politkovskaia. As autoridades não comentaram o anúncio. Um blogueiro militar conhecido, Rybar, repassou um texto que acusa o jornal de promover uma narrativa anti-Rússia.

Jornalistas russos independentes divulgaram uma nota de apoio: por todos os critérios, disseram, foi o melhor meio de comunicação da história da Rússia. Sokolov afirma que o jornal já fechou duas vezes e que tentará voltar quando for possível. A pergunta que o anúncio deixa é quem investiga o poder russo de dentro do país enquanto isso. Com o Novaya, sai uma das últimas redações que ainda publicavam de Moscou sem repetir a versão oficial.

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