G20 abre em Atlanta sem foto de família para não posar com Lavrov
Mais de um terço das delegações ameaçou deixar a imagem oficial ao lado do chanceler russo, e Marco Rubio cancelou o ritual que abre os encontros de alto nível. A reunião de ministros das Relações Exteriores do G20 expôs a divisão entre Washington e os europeus sobre a Rússia.
A reunião de ministros das Relações Exteriores do G20 abriu nesta sexta-feira, 30 de outubro de 2026, em Atlanta, sem a tradicional foto de família. Dois funcionários ocidentais disseram à CNN que mais de um terço das delegações presentes ameaçou deixar a imagem oficial para não ser fotografada ao lado do chanceler russo, Sergei Lavrov. Segundo três fontes ouvidas pela emissora, os Estados Unidos chegaram a estudar duas fotos, uma com Lavrov e outra sem ele. O secretário de Estado, Marco Rubio, decidiu cancelar o ritual de vez.
Um funcionário estadunidense explicou a decisão: a foto viraria distração e espetáculo, e ofuscaria o encontro. “A foto foi cancelada depois que ficou claro que algumas delegações não estavam dispostas a participar de uma imagem conjunta”, disse. “Em vez de permitir que uma oportunidade cerimonial se transformasse em distração diplomática, os Estados Unidos decidiram abrir mão da foto e manter o foco nas discussões substantivas.”
Lavrov respondeu no fim do dia, em entrevista coletiva em Atlanta. “Se o que mais importa para eles é como aparecem na foto de família e quem está ao lado, bem, isso diz tudo”, afirmou. Ele também confirmou o encontro com Rubio: “Tivemos uma conversa decente, ainda que breve, porque, por razões compreensíveis, ele tem muitos compromissos como anfitrião.” Segundo a agência russa Ria Novosti, os dois trataram de relações bilaterais e de coordenação em foros multilaterais.
Muro europeu
O chanceler da Polônia, Radoslaw Sikorski, disse que cancelar a foto foi a decisão “certa”: “Não sou o único a não querer ser fotografado com Lavrov”. A Itália mandou a subsecretária de Estado para os Negócios Estrangeiros, Maria Tripodi, num encontro em que os europeus fizeram muro contra a presença russa. A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, declarou à Agence France-Presse (AFP) que Lavrov não deu nenhum sinal de abertura: “Naturalmente ele apresentou muitas mentiras, muitas teses falsas que depois conseguimos refutar.”
A pauta da reunião explica o desconforto. Os ministros discutem a guerra na Ucrânia, a guerra contra o Irã, a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, no Mar Vermelho, no Mar Negro e no Mar da China Meridional, com o risco de novos ataques no horizonte. A Ucrânia, que não é membro do G20, não foi convidada a Atlanta.
Rubio abriu os trabalhos com um aviso: “Estamos num momento crítico, eu diria um momento de escolha; e não só para o meu país, mas, francamente, para o mundo inteiro.” O governo americano quis a Rússia na mesa porque, na formulação repetida pelo secretário, não há como resolver o conflito sem falar com os dois lados.
O que a foto cancelada mede
O encontro deve terminar com uma declaração do país que preside a reunião, e não com um comunicado conjunto, segundo a CNN. É a medida exata do que Atlanta produziu: um clube que segue reunido e já não consegue posar junto.
Para o Brasil, membro do G20 e interessado em manter o foro funcionando para comércio e clima, a diferença é prática. Uma reunião que fecha em declaração do anfitrião, e não em texto acordado por todos, entrega menos ao país que negocia nas margens do encontro.
A foto de família é o único momento em que os ministros aparecem sem pasta na mão e dizem, com o corpo, que formam um grupo. Em Atlanta, esse momento foi cancelado antes de acontecer, e a razão foi dita em voz alta por um funcionário estadunidense: havia quem não quisesse estar na imagem. O G20 continua sendo um dos poucos foros em que a Rússia se senta à mesma mesa dos europeus. O que Atlanta mostrou é que a mesa segue de pé.