China manda enviado ao Oriente Médio e Teerã reúne a tríplice do pacto de Meca
Pequim anunciou em 27 de outubro de 2026 o envio de um enviado especial à região, um dia depois de Arábia Saudita, Paquistão e Turquia sentarem com o Irã em Teerã para tentar conter a retomada da guerra antes das eleições em Israel e nos Estados Unidos.
A China anunciou em 27 de outubro de 2026, em Pequim, que vai enviar um enviado especial ao Oriente Médio nos próximos dias para tentar conter a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, disse que Pequim acompanha com preocupação a situação no Oriente Médio, no Golfo, no Mar Vermelho e no Chifre da África e defendeu que as partes resolvam as diferenças pelo diálogo para alcançar um cessar-fogo sustentável o mais cedo possível, segundo a agência estatal chinesa Xinhua.
O anúncio chinês cita nominalmente o risco de transbordamento do conflito para o Mar Vermelho e o Chifre da África, tema da reunião entre os chanceleres da China e do Djibuti em Pequim na semana anterior. O Djibuti abriga bases militares de vários países na entrada do Mar Vermelho e é peça direta da segurança das rotas que ligam o Golfo ao Canal de Suez.
Um dia antes, em 26 de outubro de 2026, delegações de alto nível da Arábia Saudita, do Paquistão e da Turquia estiveram em Teerã para conversar com autoridades iranianas sobre como evitar a retomada da guerra total. Estiveram na mesa o ministro da Defesa saudita, Khalid bin Salman, o chefe do Exército paquistanês, marechal-de-campo Asim Munir, e o chefe do serviço de inteligência da Turquia, Ibrahim Kalin, recebidos pelo secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Mohsen Rezaei, com encontros com o presidente Masoud Pezeshkian e o chanceler Abbas Araghchi. As quatro delegações concordaram em seguir conversando sobre paz e segurança regional, sem anunciar data nem lugar para a próxima rodada. A guerra no Iêmen e os ataques dos houthis, grupo aliado do Irã, contra a Arábia Saudita também entraram na pauta.
Teerã mantém as exigências como preço para normalizar o trânsito no Estreito de Ormuz, passagem entre o Irã e Omã por onde circulavam petróleo e gás natural liquefeito antes da guerra: alívio das sanções, fim do bloqueio naval estadunidense aos portos iranianos no Golfo e garantias de que Washington não voltará a atacar. Washington, por sua vez, quer concessões sobre o programa nuclear iraniano antes de um acordo final, segundo análise do Al Jazeera publicada em 27 de outubro de 2026. O impasse carrega a desconfiança iraniana depois de ataques lançados durante negociações em curso e do memorando de junho de 2026 mediado por Paquistão e Catar para reabrir Ormuz, que ruiu em semanas e foi seguido por novos bombardeios estadunidenses em julho de 2026.
O relógio é duplo. Os Estados Unidos realizam eleições legislativas em 3 de novembro de 2026, com as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 cadeiras do Senado em disputa, e o presidente Donald Trump disse que os ataques ao Irã ficariam para depois das urnas, embora tenha voltado a dizer em 25 de outubro de 2026 que poderia atacar o Irã de novo. Israel também tem eleição, e uma derrota do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu pode embaralhar a coordenação de novos ataques conjuntos com Washington.
Nem Pequim anunciou roteiro ou datas para as visitas do enviado, nem Teerã publicou comunicado conjunto além da promessa genérica de continuar conversando. O que os dois movimentos mostram, juntos, é uma diplomacia não ocidental tentando ocupar o intervalo entre as urnas: a tríplice do pacto de Meca fala com Teerã para segurar a frente regional, e a China oferece um canal com o Golfo, o Mar Vermelho e o Chifre da África antes que a janela eleitoral se feche e a guerra volte a escalar.